14/05/2021 às 19h31min - Atualizada em 14/05/2021 às 19h31min

Jacarezinho e os extremos

ALEXANDRE HENRY
Como já aconteceu outras vezes, tivemos recentemente uma operação da polícia em uma favela no Rio de Janeiro que resultou em uma grande quantidade de mortos. Foram vinte e oito óbitos, sendo um deles de um policial. E, como acontece há muito tempo no Brasil, o evento gerou uma polarização idiota e desnecessária.

Vamos primeiro para algumas críticas sobre o modo de atuação da polícia. Parte da imprensa e da população condenou de forma tão feroz a operação que praticamente não deixou espaço para um olhar da situação como de fato ela pode ter ocorrido com algumas ou várias das mortes. Muita gente faz um estrago na cozinha quando entra uma simples barata voadora, jogando chinelo e quebrando louça, saindo correndo e derrubando tudo pela frente. Mas, ao mesmo tempo, acha que o policial, só porque teve treinamento, tem que enfrentar bandido armado de fuzil sem revidar e sem fazer nenhum estrago. Não é bem assim. Se o policial chega a um local e é recebido por tiro de arma que só deveria ser utilizada pelas Forças Armadas, não é minimamente razoável exigir dele que se comporte como alguém que está diante de uma criança pulando amarelinha. Se ao cidadão comum é dado o direito à legítima defesa quando tem sua vida ameaçada, não se pode retirar esse direito do policial que está ali cumprindo uma ordem judicial. E, sim, é muito provável que dentre os mortos havia bandidos perigosos e que receberam a polícia fortemente armados. Por isso, criticar a ação policial como se tudo o que foi feito ali foi completamente errado não é razoável.

Mudemos para o outro lado. Boa parte da população bateu palmas para a operação e disse que bandido tem mesmo é que morrer, generalizando como se tudo ali realmente tivesse sido uma questão de morte decorrente de troca de tiro. Pode ter sido? Claro que pode. Porém, há elementos fortíssimos para se pedir, no mínimo, uma investigação muito séria e imparcial. Primeiro, a quantidade de baixas de cada lado. Eu leio muito sobre guerras e não me lembro de uma em que tenha havido vinte e sete mortes de inimigos para cada perda de vida do lado vencedor, ainda mais quando, conforme a própria polícia alega, os bandidos estavam utilizando armamento de guerra. Sabe aquela situação que não passa pelo mais simples teste de bom senso? Segundo, a questão da retirada dos corpos do local pela própria polícia, algo que contraria decisão do STF, pois mexe na cena e impede que se faça uma investigação científica sobre o que realmente ocorreu. Terceiro, a polícia estava ali para cumprir vários mandados de prisão, conseguiu ser pouco efetiva nesse ponto e, ainda assim, foram quase trinta mortos do outro lado. No mais, só dá para dizer que todos ali eram bandidos depois de uma investigação séria e isenta, como eu disse.

É justamente isso o que deveria ser feito e que, infelizmente, não vai acontecer. Se eu fosse policial, eu gostaria que fosse feita a análise mais apurada possível dos fatos, de maneira a comprovar que realmente as vinte e sete mortes ocorridas em Jacarezinho foram consequência de legítima defesa por parte da polícia. Quer algo mais positivo para a imagem da corporação? E, se acaso alguma morte tenha sido decorrente de ação errada ou mesmo criminosa por parte de algum policial, eu iria querer a mesma investigação e que esse sujeito fosse expulso da corporação e, conforme o caso, devidamente condenado. Para o servidor público verdadeiramente honesto e que veste a camisa da sua instituição, expurgar os maus elementos é algo desejável o tempo todo. Como juiz, por exemplo, fico extremamente feliz quando há uma investigação séria e que, resguardando o direito à ampla defesa, conclui seja pela inocência ou pela culpa de algum colega. Se o juiz fez algo incompatível com o cargo, que deixe a minha instituição.

Polarizar não resolve muita coisa. Defender que a polícia só errou ali e atuou tão somente como uma força assassina a limpar o território para a entrada da milícia, sem que tenha sido feita uma investigação para comprovar isso, é dar munição para a direita extremista. Por outro lado, chamar todas as vítimas de vagabundos criminosos que mereciam ter morrido, sem a mesma investigação, é continuar prejudicando a imagem da polícia, uma corporação que precisa ter credibilidade junto à população, até pelo próprio papel importante que realiza.

Enfim, ambos os lados deveriam parar com acusações radicais e partir para a defesa de uma investigação bem feita, que traga um pouco de verdade à luz.
 

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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