07/05/2021 às 17h41min - Atualizada em 07/05/2021 às 17h41min

Mudar de opinião

ALEXANDRE HENRY
No começo deste ano, fiquei bastante ansioso quanto à volta às aulas da minha filha. Depois de um ano letivo quase inteiro diante do computador, eu percebia que faria muito bem a ela voltar à escola presencial, rever os amigos, interagir diretamente com os professores sem a mediação de uma tela. Por conta disso, fiquei bastante chateado quando uma decisão judicial determinou o fechamento das escolas na cidade. Até pela minha própria profissão, entendo que decisão dessa natureza é para ser cumprida, mas é inegável que eu suspirava por continuar vendo o mesmo sorriso feliz que minha filha tinha dado nos três dias de fevereiro em que ela pode pisar na escola. Na época, não escondi de ninguém que era favorável à volta às aulas presenciais.

Gastei menos de duas semanas para mudar de opinião. Qual era o panorama da pandemia nos primeiros meses do ano passado? O de vitimar, em sua quase totalidade, apenas pessoas idosas ou com comorbidades sérias. Assim, qual a razão para continuar com o ensino remoto se as crianças corriam riscos ínfimos e os professores, em sua maioria, não estavam nos grupos de risco? Por que não afastar apenas os docentes idosos ou com comorbidades? Esse foi o pensamento que me moveu no início de fevereiro, aliado ao fato de que realmente a educação por meio de um computador é menos eficiente para crianças de pouca idade, chegando, em alguns casos, a ser praticamente inviável.

Mas, o novo ano trouxe novas variantes do vírus. Logo, percebi que, mesmo as crianças ainda não estando ameaçadas de forma preocupante pela doença, os professores estavam. Como me olhar no espelho depois se uma das professoras da minha filha falecesse por conta de COVID comprovadamente adquirida na escola? Não foi somente isso: e os pais dessas crianças, incluindo-me entre eles, não ficariam também muito mais expostos às formas graves da doença trazidas pelas variantes que ganharam força em 2021? Tudo isso me levou a uma mudança relativamente rápida de opinião e, desde então, passei a defender a continuidade do ensino remoto, por mais trágico e ineficiente que ele possa ser, até que ao menos os professores estejam imunizados.

Durante essa pandemia interminável, por algumas ocasiões alterei meu pensamento e minhas opiniões. No começo, por exemplo, eu defendi que teríamos um problema passageiro, pois logo descobririam um remédio eficaz para combater o vírus. Com três meses de pandemia, eu já não acreditava mais nisso, pois a realidade me mostrava exatamente o contrário.

Mudanças de opinião assim já aconteceram várias vezes ao longo da minha vida. Não é algo que acontece todo dia, pois não sou folha de bananeira ao sabor dos ventos. Porém, também não sou uma estaca fincada profundamente no chão que não se mexe um milímetro. Se as circunstâncias mudam, não há por que não mudar meu pensamento. Aliás, não é só quando há mudança nas circunstâncias, mas também na compreensão da realidade. A realidade pode ser a mesma de antes, mas se agora eu consigo enxergá-la de uma forma mais clara e isso indica uma necessidade de mudança de pensamento, que venha a mudança o mais rápido possível.

Prefiro ser assim e não deixo de ficar impressionado quando vejo tanta gente que coloca uma ideia na cabeça e não arreda o pé de maneira alguma. A sensação que tenho é de que, para boa parte do povo, mudar de ideia e admitir um erro é algo que humilha, que rebaixa, que torna a pessoa alguém pior. No fundo, em minha visão, trata-se de um pensamento presunçoso, pois se você acha que não pode errar você se equipara a Deus. Não preciso dizer que todo mundo erra, pois isso é óbvio. Se falhar, seja nos atos, pensamentos ou opiniões, é inerente à condição de ser humano, tentar esconder tais falhas não faz sentido algum e a própria tentativa de esconder o erro, em si, faz de você uma pessoa menor, uma pessoa menos digna e menos relevante. Por outro lado, admitir que você não estava correto traz conforto interno e também acaba por engrandecer você perante as outras pessoas.

Claro, o que digo aqui não tem nada a ver com ficar mudando de opinião o tempo todo, especialmente nos assuntos mais sérios. Quem acredita em algo deve, antes de alterar seu posicionamento, avaliar muito bem as razões para uma mudança dessa natureza. De toda sorte, se o mundo ao seu redor está indicando que você pegou o caminho errado ou que, ainda que o caminho fosse o correto até ontem, é hora de pegar outro, mude seu pensamento sem medo de ser feliz.


Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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