04/05/2021 às 17h30min - Atualizada em 04/05/2021 às 17h30min

Antigos costumes

ANTÔNIO PEREIRA
A família Bino da Rocha formou-se, aqui, em Uberabinha, com o Justiniano da Silva Pereira Bino e dona Maria Constança de Novaes Bino que se tinham casado em Patrocínio. Moraram uns tempos em Uberaba e aqui chegaram nos finais de 1885 já com quatro filhos: Joana Joanita, Rita, Agenor e Thereza. Aqui tiveram mais filhos. Na formação da família juntou-se o moço Tertuliano Alves da Rocha.

Agenor Bino, com Gil Alves dos Santos, fundaram o glorioso Uberlândia Esporte Clube, mas isso é outra história.

Tertuliano, conhecido por Terto, era seleiro, sapateiro e cuidava bem de um curtume. Veio de Formiga, passou por muitas cidades e chegou solteiro a Uberabinha em 1896. Aqui, enamorou-se de Thereza Bino e casaram-se. Tiveram onze filhos.

Um dos filhos do casal, o Newton, aprendeu a profissão de alfaiate, que era muito cotada naqueles princípios do século XX. Gostou de uma costureirinha bonita de nome Siomara Faria, de cuja família não possuo informações. Siomara era pequenina, mas muito elegante e simpática. Chamavam-na de Sió. No dia 24 de março de 1917, o casal recebeu as bênçãos nupciais na matriz de Nossa Senhora do Carmo.

A casa em que dois foram morar ficava perto da do Justiniano e dos pais de Sió. Justiniano era agente dos Correios (foi o primeiro) que ficava na rua Vigário Dantas. A lua-de-mel do casal foi completamente diferente das do nosso tempo. O casal simplesmente entrou para dentro de casa e trancou portas e janelas que davam para a rua. Ali ficaram durante uma semana sem que qualquer amigo, conhecido ou parente fosse incomodá-los. Ao fim dos sete dias, abriram portas e janelas para arejamento da casa e para receber as visitas que logo se achegaram para cumprimentos e papos furados.

No dia seguinte, Sió retomou suas encomendas de bordados e costuras e Newton foi para a alfaiataria do cunhado Joaquim, que ficava na rua Barão de Camargos.

Os meses correram serenos e felizes, mas logo a sombra do ciúme e do desencanto pousou sobre o lar dos jovens amantes.

Newton tinha o costume de, aos sábados, depois do trabalho, encontrar-se com amigos e conversar longamente, com certeza, tomando alguma cervejinha quente (não havia geladeiras, ainda). Sió sentia-se abandonada e não achava justo que o marido a deixasse para ficar na companhia de outros rapazes. Não dizia nada, apenas sofria.

Esse mal-estar cresceu no seu espírito e, numa dessas tardes, enquanto esperava angustiada a volta do Newton, não suportou e ingeriu um líquido cáustico que havia para limpezas chamado Lisol. Sió estava grávida. Tinha só dezoito anos. Só bem tarde da noite, daquele dia, a jovem desesperada contou a loucura que cometera. Não disse a razão.

Poucos dias depois do gesto impensado, apesar dos cuidados médicos, Sió faleceu. Foi um desespero para o marido. Amava-a muito.

Abandonado pela sorte, Newton trancou-se dentro da pequena casa onde, há menos de um ano, vivera uma semana de lua-de-mel. E ficou, de novo, por sete dias trancado, sem visitas, sem amigos, sem parentes. O sinal de vida que dava era a fumaça que, de vez em quando, saia pela chaminé.

Nos dias seguintes, Newton ia muito ao cemitério levar flores e orar pela desditosa alma da esposa. Mas não ia só de dia. Algumas vezes, à noite, ele pulava o muro e ia para a beira do túmulo da esposa e lá ficava se perguntando por quê? Por quê? Sem nunca ter obtido qualquer resposta.
 
Fonte: Aloísio Santuário da Rocha (Tertuliano Alves da Rocha Filho)                   



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