06/04/2021 às 08h39min - Atualizada em 06/04/2021 às 08h39min

Dó no peito do Brasil de Timóteo

ENZO BANZO
Agnaldo Timóteo. Brasileiro, mineiro, negro. Cantor, daqueles do dó de peito, que bate no tambor da gente. O Cauby Mineiro dos concursos de calouros dos anos 1960. Dali despontou: vida artística como possibilidade de ascensão social. O antigo motorista de Ângela Maria passou a guiar o próprio carro. Dividiu o palco com a antiga patroa. Homem do século XX, daqueles que deixaram interiores recônditos para a luz das famas das metrópoles. Dizia que seu destino era ser famoso, fosse como cantor, advogado ou bandido. Foi herói idealizável? Não. Foi contraditório. Como seu país.

Brasil. A gente achava que as guerras, as grandes guerras mundiais, nunca chegariam aqui. Nas cidades pequenas, ainda estaríamos mais protegidos. Os grandes problemas do mundo passavam nos jornais da TV, como as novelas. Não pareciam coisas nossas. As nossas coisas eram as mazelas das misérias e das injustiças aqui de dentro. Contradições de um paraíso tropical. Agora virou o país do medo e da morte. O mundo tem medo do Brasil. O Brasil é a notícia ruim que passa no jornal do mundo. Não é no Iraque, Afeganistão, Coreia do Norte, Etiópia. É aqui mesmo, nosso país, estado, cidade, rua, casa. A gente virou o mal do mundo.

Timóteo não foi santo. Como resumiu Caetano Veloso, "Agnaldo representava a vida dos brasileiros, com seus breus e suas luzes". O homem forte da voz potente morreu de Covid-19. Tomou a vacina, mas já estava infectado. 84 anos. Não deu tempo. Morte dos breus e das luzes do Brasil, país contraditório que inventou de cair na contradição de não aceitar a diferença, ou seja, a si mesmo.

Aceitar a diferença, emocionar-se com o dó de peito de Agnaldo, assim como com a voz sutil de Roberto, que aprendeu a cantar com João Gilberto. Compreender a mesma verdade no canto de Agnaldo Timóteo, seja quando cantava versões de sucessos americanos ou franceses ("A Casa do Sol Nascente", "Aline"), quando interpretava Gonzaguinha ou Chico Buarque ("Grito de Alerta", "Olhos nos Olhos"), quando dava seu grito, e em seus passeios perigosos pela misteriosa "Galeria do Amor", lembrada por Caetano (o mesmo que Agnaldo acusava de não saber cantar, ou de compor complicando).

Na canção rememorada por Veloso, o sujeito boêmio, desajustado, sai numa noite de insônia "procurando emoções diferentes" e encontra esse outro lugar, no qual "gente que é gente se entende, onde pode se amar livremente". Um Agnaldo libertário, voz do livre amor. Porque o contrário da morte é a vida, e a afirmação da vida é o amor. Agnaldo de voz grave ficava ranzinza quando questionavam sua sexualidade. Breus e luzes. Brasis.

"Os brutos também amam", cantava Timóteo. Os brutos também morrem, de amor e de vida. Não precisariam morrer da política da morte, da defesa contundente da morte, da ignorância que parece saber muito bem o que deseja: poder matar. Agnaldo representava o Brasil e aqui o saúdo. Como nomear os mais de 300 mil que já se foram, dos quais a grande maioria poderia estar aqui se não fosse a política de defesa ostensiva da morte?

Arnaldo Antunes escreveu num novo poema sobre os tempos passados: "antigamente havia guerras, hoje não há paz". Nos ensinaram na escola que as guerras eram coisas de longe, mesmo com a invasão na terra alheia que hoje chamamos de nossa, mesmo com a matança dos quem já estava aqui, ou de quem veio escravizado. Não, guerra era coisa de gente importante da história do mundo, das Europas ou norte-américas. Mas a gente achava que mesmo com tanta mancha estávamos caminhando para frente. Pra frente, Brasil?

Nos jornais, as boas notícias chegam do resto do mundo. Enquanto aqui, naufragamos na marcha-ré da história. Emudece a voz. Dó no peito.



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