23/03/2021 às 16h07min - Atualizada em 23/03/2021 às 16h07min

No tempo do cinema falado

ANTÔNIO PEREIRA
“O cinema falado é o grande culpado da transformação...” – dizia Noel Rosa no velho samba “Sem tradução”, saído nos princípios dos anos 30 do século passado.

A expressão “cinema falado” evaporou-se e quando se fala nela é só para lembrar a chegada do cinema com som ao Brasil, à época do samba do Noel.

Em Uberlândia, ele chegou em 1930 quando só tínhamos o Cine Avenida, da empresa J. Peppe & Cia. O “Cia” era o empresário Joaquim Marques Póvoa.

José Peppe era filho do italiano Carlo Peppe e dona Josephina Peppe. Chegou a Uberabinha em 1916 e foi trabalhar no armazém do Póvoa que ficava onde é a Previdência Social, na praça Clarimundo Carneiro. Póvoa era rico, dinâmico e muito inteligente. Dizem que os Póvoa eram judeus portugueses que emigraram à procura de segurança longe das perseguições europeias.

Depois de muitos anos fazendo a contabilidade do Póvoa, Peppe propôs-lhe um negócio: instalarem um cinema na cidade que andava desprovida desse divertimento.

O português topou e construiu o Cine Avenida, onde foi depois o Cine Bristol.

A inauguração foi em 1928 com o filme “Ben Hur”, estrelado por Ramon Novarro. Eram 14 longas partes e o filme... era mudo!
Foi um sucesso!

A questão do filme mudo era contornada com música ao vivo. Os cinemas tinham, desde os seus primeiros momentos, uma orquestra para colocar “clima” nas variadas cenas.

No cine Avenida, a orquestra tocava, antes da exibição, numa espécie de “mezzanino” que havia na Sala de Espera. Quando o filme ia começar, lá iam os músicos enfiarem-se num poço diante do palco para melhorar as emoções das cenas dramáticas.

Entre os músicos da orquestra do Avenida destacavam-se o violinista Bráulio Vieira e a pianista dona Sara. Eles eram casados, trabalhavam juntos e dizem que seriam os avós da atriz “global” Suzana Vieira. Não sei.

Pois bem, em 1930 chegou o cinema falado e o pessoal das orquestras de cinema ficou sem trabalho.

O cinema falado não era uma coisa tão simples como se possa imaginar. A primeira curiosidade é que o som não vinha gravado na fita, como hoje. Na verdade, o filme continuava mudo, só que as produtoras gravavam toda a trilha, diálogos e ruídos em discos de 78 rotações por minuto. Os 78rpm normais da época tinham 10 polegadas. Os do cinema eram enormes, maiores que os desativados LPs que tinham 12.

A outra curiosidade é que esses discos eram tocados do centro para a beirada. Curiosa essa inversão, não é? Dada a sua fragilidade, eles vinham protegidos por embalagens metálicas e traziam as indicações de uso que permitiam uma perfeita sincronização da ação com o som. Acompanhavam-nos, tiras de fita com os quadrinhos sem imagem. O objetivo era colá-las no filme em substituição a eventuais cortes feitos para remendar a fita quando se partia ou se queimava. Dessa forma, mantinha-se a sincronia com o som. O auxiliar da cabine de exibição do Avenida é que contava os quadros perdidos e os substituía. Ele devia, também, conferir a fita antes da exibição para ver se não faltava algum pedaço. Faltando completava com a tira negra.

Mesmo assim, aconteciam coisas grotescas. Quando a Mogiana se atrasava e não havia tempo para a conferência, um eventual desencontro entre imagem e som produzia coisas hilárias como um cavalo rinchar quando o cavaleiro falava; ouvirem-se passos enquanto um ator dava tiros; uma voz feminina quando um homem falava, e vice-versa, enfim, tudo o que se possa imaginar de absurdo. Era um delírio para a plateia.

O tempo passou, em meados da década de trinta, Ernesto Paglia construiu o majestoso Cine Theatro Uberlândia, com 2.200 lugares, iniciando uma fase de competição entre as salas exibidoras na qual saiam lucrando os espectadores. Mas aí já é outra fase do cinema em Uberlândia.
 
Fonte: José Peppe Jr.

 
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