27/02/2021 às 08h29min - Atualizada em 27/02/2021 às 08h29min

O tempo e o julgamento

ALEXANDRE HENRY
Já se passaram uns bons anos desde que as obras infantis de Monteiro Lobato foram colocadas sob os holofotes por conta de acusações de racismo. Realmente, alguns trechos das obras dele refletem situações e falas que não condizem com o avanço que tivemos quanto a questões raciais. Sim, há alguns estudiosos de Monteiro Lobato que negam esse fato, mas é preciso um exercício argumentativo muito grande para isso. Da minha parte, realmente considero que algumas passagens do autor são expressões claras de preconceito. A grande questão que se esse abre é se isso é suficiente ou não para banir a obra de Lobato.
 
Antes de qualquer resposta a essa questão, é preciso entender que se deve julgar uma pessoa ou suas obras de acordo com o tempo dela. Dias atrás, ouvi uma palestra no TED, ministrada por Juan Enriquez, em que ele deu alguns exemplos interessantes que se encaixam nessa nossa conversa aqui. A escravidão é uma delas. Hoje, qualquer um que defenda o direito de escravizar outra pessoa é colocado à margem da sociedade. Porém, nem sempre foi assim.
 
Enriquez lembra que, até a Revolução Industrial, qualquer tarefa demandava o esforço de muita gente (ou de muitos animais, completo eu). Quando você tinha algo muito pesado para deslocar de um lugar para o outro, ou você carregava nas costas, se conseguisse, ou você dava um jeito de colocar um animal para fazer a tarefa. Produzir algo que dependesse de uma moenda? Era você ou um animal girando aquilo ali o dia inteiro.
 
Quem tinha um burro ou um boi para ficar andando em círculos e fazendo força do amanhecer ao anoitecer era tido como sortudo. Nessa realidade, que perdurou por milênios até a Revolução Industrial, obrigar alguém a fazer aquele esforço no seu lugar não era um problema moral. Afinal de contas, era ele ou era você. Se ele era de outra etnia, se um dia tinha te ameaçado com a guerra, por que não fazer dele seu escravo? Que problema havia nisso? Ou será que seria melhor você mesmo se matar sozinho tentando plantar todo o seu alimento?
 
Mas, a tecnologia se desenvolveu e as máquinas passaram a fazer o que dezenas, às vezes centenas de homens antes faziam. Ter um escravo passou a ser não apenas desnecessário, mas improdutivo, já que alimentar o escravo era mais caro do que fornecer uma fonte de energia para uma máquina. Foi exatamente tal (r)evolução que permitiu ao homem passar a olhar para a escravidão como algo abjeto, totalmente repugnante. As coisas mudaram tanto que, hoje, quase todo mundo também se horroriza ao ver um cavalo puxando uma carroça na cidade, algo que seria visto como um privilégio do dono do cavalo há poucos séculos.
 
Estamos no começo de outra mudança desse nível e você é que, daqui a poucas décadas, poderá ser considerado um bárbaro, uma pessoa nojenta e cruel. Você e eu, claro. Falo do consumo de carne. Por que ainda matamos animais para comer? Porque não temos outro substituto adequado, de baixo custo e palatável para a nossa necessidade de proteína. Só que a chamada “carne de laboratório”, aquela produzida a partir de células animais cultivadas em ambientes adequados, já é uma tecnologia disponível e, em alguns anos, vai se tornar uma opção tão viável financeiramente e prazerosa ao paladar quanto aquele bife angus que você come agora.
 
Quando isso ocorrer, será natural que toda a sociedade, não apenas um pequeno grupo como é hoje, passe a tratar o abate de animais para consumo como algo monstruoso.
Bom, chegamos aonde eu queria. Quando seu tataraneto ouvir que você comia carne de animais abatidos, você gostaria que ele o julgasse levando em conta nossa realidade atual ou apenas a realidade lá do futuro? E se, por acaso, você tiver escrito um livro ou gravado um filme com uma cena de uma festa na qual, após abater um boi, os convidados se confraternizam felizes com um churrasco? Você acha que essa sua obra, daqui a cem anos, tem que ir para o lixo, não importa a qualidade artística dela, ou deve continuar disponível para o público, que deverá apenas entender que você vivia em uma época diferente na qual matar animais para comer não era algo rejeitado socialmente?
 
Não estou defendendo Monteiro Lobato por completo, embora o texto dê uma visão sobre meu pensamento. A minha intenção principal é apenas mostrar que precisamos olhar não só para o passado, mas também para o futuro, quando fazemos um julgamento. Pode ser que você tenha a mesma visão que eu, pode ser que não tenha. O que não pode ocorrer é simplesmente se ignorar o tempo quando se julga alguém ou alguma obra.
 
 
Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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