09/02/2021 às 08h45min - Atualizada em 09/02/2021 às 08h45min

Sobre LUTOS & LUTAS - Reflexões sobre a COVID 19 e o retorno as aulas presenciais em Uberlândia

Murilo Ferreira, advogado e vereador em Uberlândia
Quando faço o debate sobre o retorno as aulas não o faço com viés político, sindical ou partidário e, sim, escutando, dialogando e construindo razões objetivas para formar meu pensamento contrário ao retorno as aulas presenciais neste momento.
Sustento minha opinião em dois fatos concretos: 1) o período atual é de aumento do número de testagens positivas, internações e óbitos; 2) é fundamental a vacinação dos educadores, ASGs e administrativos das unidades escolares (lembrando que os alunos ainda não podem ser imunizadas, por ausência de testes seguros de vacinação em crianças).
Para além disso, tenho visto crescer nesta discussão análises simplistas, ideológicas e oportunistas sobre o tema. É importante termos o cuidado para não cometermos o mesmo erro que o Governo Federal cometeu desde o início da pandemia, quando não criou uma agenda nacional sobre o tema, não articulou com os outros entes federados, minimizou e ideologizou a crise sanitária, fragmentou o país em uma colcha de retalhos de decisões distintas para os mesmos problemas, ampliou incertezas sobre protocolos a serem seguidos, manipulou informações oficiais e difundiu outras oficiosas, atrasou as ações de compra de vacinas e o conjunto de tudo isso fez do Brasil o epicentro mundial do que defino como a ANTI-GESTÃO da pandemia.
Então, quando ecoam nos meus ouvidos vozes simplistas de um lado dizendo que professor não apoia o retorno porque “quer receber em casa sem trabalhar”, ou “que esse sentimento é só de esquerdista”, ou, do outro lado, “que quem quer voltar são só as escolas particulares” e “que o prefeito é de direita e não se preocupa com vidas”; logo percebo que a pandemia nos ensinou menos do que deveria sobre humanismo, respeito e solidariedade entre nós.
Não é justo com o prefeito dizer que ele não se importa com a vida dos seus munícipes. Desde o início da pandemia tem agido como um gestor responsável, tomou medidas duras de isolamento social, fechou o comércio, desapropriou um hospital e o tornou exclusivo para tratamento da COVID 19, dobrou leitos de UTI, assinou protocolo para compra de 400 mil vacinas, ampliou o quadro de profissionais na área da saúde, sanitizou a cidade várias vezes, testou muito mais pessoas do que a média estadual e nacional e sempre respeitou as decisões técnicas do Comitê de Enfrentamento a COVID 19.
Em outro vértice, me dói como filho de uma educadora da rede pública, ouvir insensatos covardes dizerem que professores não querem regressar as aulas presenciais por capricho. Vocês não sabem o que dizem: pois a sala de aula é uma missão de vida, educar é amar, é entender, é doar, é viver cada experiência em um mundo único chamado ESCOLA; é ali a segunda casa de quem se dedica ao dom de ensinar; foi muito duro para essas pessoas serem arrancados de suas segundas moradas e colocados para darem aulas remotas, sem interatividade e calor das crianças, longe do saudável ambiente escolar, cumprindo metas muito mais robóticas do que educacionais e vivendo todo estresse que o isolamento trouxe a todos nós. Não tenho dúvidas de que ninguém mais dos que os professores querem o retorno as aulas presenciais.
A verdade é que somos todos, do prefeito ao professor e demais cidadãos, navegantes do mesmo barco repleto de agonias, medos, incertezas, inseguranças, desafios, LUTAS & LUTOS deste triste momento nunca antes vivido por nós!
Concluo, que nada nesse contexto é permanente e devemos ter nossas convicções sem sermos radicais, estando sempre prontos e abertos para flexibilizar entendimentos e construir consensos sempre com a intenção de buscar o bem da coletividade!
Mas é caso as AULAS PRESENCIAIS realmente voltarem!? O que a comunidade escolar e o poder público, para além dos protocolos sanitários, podem refletir em conjunto neste novo momento?
A meu ver, é importante que a ESCOLA amplie e reordene sua missão para ser compreendida como um equipamento público de referência atuando em parceria com as unidades de saúde e de assistência social na busca, no acolhimento, na escuta e na ressignificação de vidas.
Mais do que os conteúdos previstos nos planos didáticos de ensino e protocolos sanitários, o Poder Público deve preocupar-se em conhecer e avaliar as trajetórias individuais e coletivas de alunos, pais, professores, ASGs e demais atores da comunidade escolar, durante a pandemia. ISSO É O MAIS IMPORTANTE.
Passados quase um ano de pandemia, precisamos colher respostas para as seguintes perguntas:
Como estão essas famílias? Como estão essas crianças? Como estão esses educadores? Onde estão aqueles que não participaram das atividades a distância? E as vítimas de abandono material e intelectual pelos pais? E aqueles que deixaram de ser crianças para cuidar de irmãos mais novos para os pais trabalharem? E os que foram vítimas de violência doméstica subnotificada? Quais alunos e professores perderam familiares para a COVID? E os pais que ficaram desempregados? Quais as expectativas destes professores para o futuro? Como será construída a educação escolar daqui pra frente?
Percebo que os medos, incertezas, estresses e perdas, resultam na necessidade indiscutível do surgimento de uma NOVA ESCOLA, independente de qual momento ela reabra, a abertura só vai se justificar se  ela for o PORTO SEGURO dos seus integrantes, são pessoas que precisam, acima de tudo, de apoio do poder público para reposicionarem suas existências com acolhimento, escuta e diálogo no grande desafio individual e coletivo de convivermos diariamente com uma nova realidade que não foi por nós escolhida e sim imposta. 


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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