29/01/2021 às 08h00min - Atualizada em 29/01/2021 às 08h00min

Direita/Sinistro Destro/Esquerda

WILLIAM H STUTZ
Há muito tempo, época em que os bichos ainda falavam, eu moço novo tinha acabado de voltar de uma cidadezinha bem “inha”, uma vilinha na verdade, beirando divisa com Mato Grosso. Lá, fui professor de escola, veterinário único em raio de tantos quilômetros, pescador de tucunaré e barbado e ser vivente em lugar de relativa paz. Digo relativa, pois, por incrível que possa parecer, a minúscula amostra de sociedade carregava consigo as mazelas de cidade grande do interior. A política, por exemplo, era polarizada e brava, ferrenha mesmo. Certa feita, as senhoras da sociedade da vila criaram até um abaixo assinado para levarem ao vereador/morador com o intuito de acabar com a Zona do lugar. Isso mesmo que você ouviu, o lugarejo perdido no meio do mundo tinha puteiro, assim era como chamavam e tudo mais. Claro que não assinamos uma loucura dessas. Éramos muito jovens, mas tínhamos clara postura em relação à vida. Experiência, viventude, traz ou deveria trazer luminosidade de pensar. Ledo engano, fui descobrir isto bem mais tarde, por alguns que quanto mais velhos mais pirrônicos se tornam. Lastimável. Digamos que para a época, em lugar tão ermo e desprovido de informações do mudo lá fora (internet nem havia sido inventada, acho eu). Revistas e jornais só mesmo os enviados pelo velho amigo Gomes, dono de livraria em Uberlândia, a antiga Pró Século XXI. Mensalmente, chegava por lotação um pacote de revistas e jornais variados para o nosso deleite. Vivíamos, em média, um mês atrasados das notícias, mas para nós tudo era atualíssimo. Acho que poderíamos ser chamados de “comunas”. Bom, depois de escutar recentemente fascistóides brazucas chamarem o quadragésimo sexto presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, e o ruralista fundador da UDR e governador de Goiás, Ronaldo Caiado, de comunistas, cheguei a óbvia conclusão de que o problema não está em mim. Mas vamos lá.

Após essa época, já de volta à cidade grande, o que não significa informada e nem progressista em ideias e atos, fui trabalhar com um chefe muito, mas muito competente. Sendo ele muito mais velho que nossa turma, existia uma certa relação paternal com este senhor. Trabalhávamos com uma garra pouco vista e, principalmente, embalados em nossos sonhos, queríamos ver as gentes bem. Até aí tudo tranquilo, mas, muitas vezes, esbarrávamos no alto apreço que essa pessoa nutria por si a ponto de, em uma reunião, nos jogar na cara: “Podem pintar o carro de qualquer cor, desde que seja preto.”

Foi o primeiro contato direto de minha vida com uma situação assim. Mudei meu modo de ver as pessoas. Um choque de realidade que muito me fez amadurecer fazendo renascer em mim a mineirice. Ali morria o ingênuo.

Décadas se passaram e nunca vi ou ouvi algo sobre este senhor que, se já era velho e ainda não morreu, deve andar por aí às sombras arrastando as correntes de sua soberba ridícula. Não acredito que possa ter mudado.

Overture, uma abertura, velhas lembranças para falar de assunto bem contemporâneo: redes sociais, campo fértil da hipocrisia, das mentiras e das ofensas gratuitas. Deveriam ser instrumentos do saber e compartilhar conhecimento, cultura, solidariedade, risos/alegria e ajuda àqueles em apuros e tanto mais.

Infelizmente, pouco se vê na direção do bem comum.

Pego como exemplo os grupos de Whatzapp. Todos temos vários: os da família, os de amigos, os de colegas de turma da universidade, os de música, os técnicos científicos e os de apoio a causas e causos. Além de outros tantos com os mais variados temas e objetivos.

Uma minoria destes grupos é séria e respeita as normas éticas e a educação. Como o respeito, a solidariedade, destes sinto orgulhoso de participar.

Outros tentam, mas não conseguem a mesma proeza. Desliguei-me de vários onde o princípio do livre pensar não é só pensar (falou Millôr, só que sem o não).

Exemplificando. Você faz parte de certo grupo cuja finalidade é o encontro entre amigos, saber como estão, família, trabalho, saúde e tais. Bom, certo dia alguém publica algo sobre um suposto time A de futebol. Você torcedor do time B posta que tal notícia é falsa, mais uma pulha virtual. Aí o mesmo e mais uns dez do grupo começam a te bombardear com críticas, desenhinhos e memes, todos em defesa do seu também amigo torcedor do A Futebol Clube. Aí, meu caro, minha cara, percebe que naquele grupo só você e mais um ou dois torcem para o B, todos os outros são simpatizantes ou torcedores fanáticos do A.  Começam as relações tóxicas. Você passa horas de seu precioso tempo envolvido com isto, e põe precioso nisso, pois em época de pandemia o risco não é virar jacaré, mas morrer de uma hora para outra.  Ardoroso, você continua a defender o time B sem que a ficha caia. Então, um lampejo. Vale à pena ficar nessa guerra? Vai conseguir mudar alguma coisa? Nunca! A maioria dos viventes nem quer mudar e muito menos dar o braço a torcer. Morre fiel ao erro, à desinformação, fruto de sua própria estupidez. Mudar dói, principalmente quando se é velho. Solução? Tem. Saia de grupos tóxicos que envenenam sua alma. Há tanta coisa bela para se fazer, ler, ouvir, viver. O respeito aos diferentes é mercadoria rara e preciosa. Eu tento conviver apenas com quem dispõe estoque dessa riqueza. O exemplo do futebol serve para todos os temas possíveis e imagináveis: religião, política, vinho, receitas de comidas, cor de roupa, blocos de carnaval.
Faz parte da alma humana? Cabe discussão, briga, desavença. Vale a pena não. Detox virtual é a melhor solução. Busque conviver com quem respeita o seu time B, assim como você irá respeitar o time A. Contudo, nada me impede de brincar com meus amigos cruzeirenses, posto que seu time quase foi para a série C! Galooooooo!

Post Scriptum: já notou que as pessoas tóxicas de qualquer grupo são, em sua maioria, frustradas, azedas e infelizes? Algumas até que têm uma vida material e afetiva bem resolvida (a maioria nem isso e amarga inveja patológica da felicidade alheia), mas mesmo aquelas aprenderam ou ainda vão aprender a duras penas que a riqueza maior não é o ouro.

O que podemos fazer é torcer para que um dia a vida deles melhore significativamente. Difícil, mas não impossível.

Mensagem minha no Whatzapp: É importante? Me liga!


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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