12/12/2020 às 08h12min - Atualizada em 12/12/2020 às 08h12min

Não vai passar em branco

ALEXANDRE HENRY*
Recentemente, aconteceu um fato histórico: em um jogo da Liga dos Campeões da Europa, os jogadores do PSG e do Istanbul Basaksehir abandonaram o campo após o quarto árbitro ser acusado de ofensa racista contra um membro da comissão técnica do time da Turquia. Foi um gesto simbólico de relevância histórica. Nunca, em um jogo de futebol de tamanha importância, algo assim tinha acontecido.

Mas, não foi um feito inédito no esporte. Em agosto deste ano, várias equipes da NBA, a poderosa liga de basquete dos EUA, também se recusaram a jogar em protesto à violência contra a população negra do país. Em ambos os casos, a decisão dos atletas foi facilitada pelo fato das partidas estarem sendo realizadas sem a presença de público no local, por conta da pandemia. Esse fato, porém, não reduz a importância dos gestos dos jogadores.

Eu vi com bons olhos esse movimento. Se você parar para pensar, o que os atletas fizeram pode estimular comportamentos semelhantes no mundo todo, ainda que em circunstâncias completamente diferentes. Se o seu ídolo não aceita mais atos racistas, por que você vai deixar passar incólume algo do gênero? A moça ofendida no ônibus, o entregador humilhado no elevador do prédio, o empresário “esculachado” pela polícia na rua, todos eles terão um estímulo para não aceitar a agressão. É a versão positiva da dominação carismática tratada por Max Weber em seus estudos, a força da devoção afetiva dos fãs aos ídolos que faz com que aqueles mimetizem o comportamento destes últimos. 

O mais interessante disso tudo é que a reação dos jogadores da NBA e dos dois clubes de futebol também quebra dois paradigmas. O primeiro é relativo à inação que toma conta da pessoa quando o problema não é diretamente com ela. Sim, isso é muito comum em todas as áreas e acontece demais na questão do racismo. Se quem sofreu aquela violência não é você e nem alguém muito próximo, do seu círculo mais caro de afeição, geralmente você toca a sua vida adiante como se nada tivesse acontecido. Os jogadores da NBA poderiam ter feito o mesmo, já que a violência havia sido perpetrada contra Jacob Blake, um sujeito “qualquer”, figura distante dos ricos e famosos jogadores de basquete. Mas, o fato de não ser contra nenhum dos atletas não impediu que organizassem um movimento gigantesco, de repercussão planetária. Se jogadores da liga de basquete mais rica do mundo agem contra a violência sofrida por um cidadão “qualquer”, por que você não faria o mesmo em relação a alguém da sua vizinhança que sofreu o mesmo?

Outro paradigma quebrado é o da suposta insignificância da ofensa. No caso da partida da Liga dos Campeões, o quarto árbitro teria se dirigido a um membro da comissão técnica do time turco chamando-o de “negro”. Para grande parte da população, certamente isso seria considerado algo errado, mas a reação dos jogadores das duas equipes seria considerada exagerada. “Como assim parar uma partida do campeonato mais importante do mundo, com milhões de pessoas acompanhando o jogo, só porque alguém se referiu a outra pessoa como negra?” – certamente diriam muitas pessoas. Pois, para os jogadores em campo, aquilo não foi pouco.

Nesse ponto, abro um parêntese aqui para traçar um paralelo com o que aconteceu em Nova York a partir de 1994, quando Rudolph Giuliani tomou posse como prefeito. A maior cidade americana vivia uma epidemia de criminalidade assustadora. O prefeito assumiu e iniciou a política da tolerância zero, coibindo infrações antes consideradas bobas, como não pagar tarifa transporte coletivo ou consumir bebidas alcoólicas na rua. Nova York se tornou, em poucos anos, uma das metrópoles mais seguras do mundo, ainda que alguns questionem se isso se deveu mesmo à política de tolerância zero. O fato é que a abordagem rigorosa ao crime se tornou uma referência e, hoje, é saudada, principalmente pelas parcelas brancas e mais abastadas da população, como um modelo a ser seguido.

Pois então, se não se pode aceitar uma infração mínima na área da criminalidade, por que não agir da mesma forma em relação ao racismo? Foi isso o que os jogadores dos clubes europeus fizeram e, com esse gesto, passaram a mensagem de que qualquer ofensa importa e deve ser combatida. Ponto para os jogadores do PSG e do Basaksehir. No âmbito do racismo, não há nada tão pequeno que mereça ser tolerado. Racismo é racismo, seja ele expresso por uma simples palavra ou por meio do homicídio de uma pessoa por conta da cor de sua pele.

* Escritor e Juiz Federal
www.dedodeprosa.com

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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