27/11/2020 às 08h00min - Atualizada em 27/11/2020 às 08h00min

Garças – das águas à seca

WILLIAM H STUTZ

Ontem ao final da tarde em céu de brigadeiro, passaram por sobre nossas cabeças em formação geométrica centenas de garças brancas. Silencioso voo em direção ao oriente. Eram vários grupos em enormes e cinematográficos "vês" embelezando o céu.
Fiquei a pensar: quantas pessoas naquela hora tiveram o privilégio de observá-las?

A maioria dos humanos anda sisuda por demais, ocupada ao extremo para olhar para cima, para o alto ou para o firmamento. Estão com os olhos fixos no chão, talvez, para não correrem risco de um casual cruzar de olhos nas ruas, no trabalho, nos bares e até em seus próprios lares. Ou estão tão presas a invisíveis e resistentes amarras que se ocupam apenas a olharem para dentro de si mesmas. Na falta de ânimo, de coragem ou esperança, ficam elas próprias tão invisíveis quanto suas correntes imperceptíveis, vivendo em tristonho mimetismo de sobrevivência.

Mal sabem elas que aquele simples encontro casual de olhos pode mudar uma vida de maneira arrebatadora. Pode ser a chance única da descoberta da grande e sonhada paixão, pode ser o início de uma amizade sem precedentes, pode ser o encontro definitivo com um sonho, pode ser o começo de uma vida plena, feliz e verdadeira. Afirmo, por experiência própria, acreditem.

Grande e sumido amigo de longa data dizia repetindo um ditado chinês ou talvez cunhado por ele próprio, que a sorte só tem muito cabelo na testa, e ela sempre vem ao nosso encontro de frente, um simples vacilo e se não seguramos com força aquelas longas tranças, ela passa ligeira, escapa, e não adianta mais tentar agarrá-la, pois sua nuca é calva, lisa e escorregadia, ela se vai intocada. Oportunidade única perdida para sempre.

Nosso cerrado, por mais maltratado que esteja, ainda tenta manter funcionando seu relógio da vida. O período do renascer, do despertar verde, da exuberância plena se vai calmo. As chuvas já se espaçando, raras ficam. E o ar seco com força retorna.

Nosso entorno natural, ou o que dele resta, já se prepara para o repouso. As aves migram, as folhagens caem como a aninhar com carinho maternal as pequenas mudas nascidas há pouco. Fruto de abundantes semeaduras da perpetuação.

O cerrado se prepara para o rigor do cinza e do silêncio. Para o pó acompanhado dos ventos áridos e incessantes, para as queimadas criminosas, que agora fazem, infelizmente, parte de seu flagelo sazonal.

Ontem, centenas de garças brancas em silencioso e harmônico voo em direção leste, por sobre nossas cabeças passaram. Foram em direção de onde o sol nasce todo santo dia indiferente ao descaso das pessoas tristes, aos cartões corporativos, às epidemias de dengue, aos famigerados dossiês da maldade, aos golpistas em busca de vantagens em tudo, ao sarcasmo às medíocres mentiras oficiais. Mas, este mesmo sol nascerá sim, sempre com carinho luminoso para aqueles que sabem na vida pequenas grandes coisas admirar e se emocionar.

As garças, caro amigo, você as viu? Se não, atente-se, hoje ou quem sabe amanhã. Sempre haverá um novo espetáculo da vida, único e rápido a nos esperar em avant première. Basta querer, a entrada, assim como a maioria das melhores coisas das nossas vidas, é franca e prazerosa.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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