19/11/2020 às 08h00min - Atualizada em 19/11/2020 às 08h00min

Canto do passarinho

IVONE ASSIS
Minhas manhãs são ornadas pela sinfonia dos pássaros. Um privilégio para poucos. Posso dizer que são momentos poéticos, que adentram o silêncio do sono, fazendo-me ouvir a poesia da natureza.

Outro dia, na revista “Vida simples” (2019, nr. 204, p. 38), li uma frase de André Gravatá, que diz: “Poesia são os encontros que tiram da nossa mente as obrigações e tarefas. Encontros que nos lembram de como a vida é passageira e de muitas coisas que não deveríamos esquecer”. Esse esvaziar-se das obrigações e tarefas é o mesmo que preencher-se do momento. É dar-se à presteza de viver o instante, sem afobar-se com a expectativa do que está por vir. É não se afixar no passado. É sentir saudade. O presente é a estação mais importante, é nele que devemos nos ater. O presente é poesia de vida. E o passarinho sabe bem dessas coisas, então, ele canta. Ele entoa seus melhores arranjos. Estufa o peito e se faz ouvir.

Quantas vezes me pego dentro do canto do passarinho. Aquele empenadinho é capaz de transformar a vida de muitos, sem nunca ter falado uma só palavra. A sua poesia une as pessoas em volta da mesa do café; aninha-as no sofá; inspira gente nas ruas... Um bichinho tão pequeno, e tão valente. Um tenor, da mais alta primazia.

Monteiro Lobato, em “A chave do tamanho” (42º ed., 1997, p. 35), escreve, na voz de Juquinha, em diálogo com Emília: “Tudo paradíssimo. Um silêncio que nunca vi. Silêncio de gente, porque os passarinhos andam mais barulhentos do que nunca. Parece que se mudaram todos para a cidade”. Juquinha devia estar meio mouco, não sabendo diferenciar barulho e poesia. Vou perdoá-lo, porque não teve a sorte de conhecer o cantor que enaltece meus dias, com sua extensão vocal. Ele consegue desafiar a si, abrindo um canto dramático e fechando-o lírico. Quem é que consegue esticar e avolumar uma voz assim, sem perder o compasso? Aquele montinho de penas amarelas consegue mais, ele abre a saudade. Como escreveu Carlos Seabra “pássaro tenor / afina a garganta / ao sol se pôr”. Aqui ele afina é já no nascer do sol. Ouso dizer que é um dos melhores sons que a cidade traz. O canto de passarinho rasga o silêncio e a tristeza, e os costura com música e alegria.

Orides Fontela, na obra “Transposição”, 1969, no poema “Sensação”, diz: “Vejo cantar o pássaro, toco este canto com meus nervos, seu gosto de mel. Sua forma, gerando-se da ave como aroma. Vejo cantar o pássaro e através da percepção mais densa ouço abrir-se a distância como rosa em silêncio”.

O passarinho, para mim, é poesia que irrompe a solidão, que preenche pensamentos, que adentra horizontes. A poesia está no encantamento que eu absorvo daquele canto, entoado por um pássaro que nem se dá conta de quão poeta ele é. Nesse sistema civilizatório, em que as ruas falam mais que os transeuntes, em que a conversa das pessoas foi substituída pelas buzinas, pelos roncos dos motores, pelo grito das frenagens... É um deleite usufruir dessa regalia de poder embriagar-se de poesia, extraída do canto da passarada. Eu bebo das notas musicais do tenor belga, que se avizinha comigo.

Rubem Alves, em “A menina e o pássaro encantado”, escreve: “As plantas precisam da água, nós precisamos do ar […] E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar. [...] preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…”.

Carecemos de nos enfeitar mais para a vida. Carecemos de ouvir mais o canto do passarinho.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 
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