06/11/2020 às 08h00min - Atualizada em 06/11/2020 às 08h00min

O brinco

WILLIAM H STUTZ
De longe, o sol refletiu brilho diferente na calçada. Acostumado a andar sempre atento ao chão, pois o campo minado pelos cães está por toda parte, aquele luzir me chamou a atenção.

Era uma subida um tanto quanto íngreme para os padrões de nossa cidade. Assim, em dado momento, aquele pequeno fulgor estava à altura de meus olhos, como se no horizonte estivesse.

Segui em frente curioso. Uma moeda talvez? Uma tira de tampa de lata de cerveja ou, quem sabe, apenas um papel de maço de cigarros? Vemos isso por todos os cantos. Educação não é o forte para muitos de nossa gente. Há aqueles para os quais lixeira é a rua. Levam seus cães para sujá-las como se isso fosse normal e como se estivessem fazendo boa ação para o pobre animal.

Uma nuvem mais encorpada de poeira, ciscos e folhas, passou ligeira e apagou momentaneamente o brilho.

Mais alguns passos e lá estava eu parado a observar a fonte de tímida luz. Era um solitário brinco dourado, perdido ali no meio do nada. Muitos haviam passado sobre ele sem notá-lo e por sorte ninguém o pisoteou.

Agachei e recolhi a pequena peça. Curioso, coloquei-a sobre a palma da mão. Era um brinco mesmo, bom pelo menos à primeira vista. Possuía o formato de uma flor, uma rosa talvez. Bem no centro um minúsculo brilhante a me olhar piscando multicor.

Era uma joia verdadeira e não bijuteria de camelô. Olhei ao redor procurando alguma moça desesperada com a mão na orelha. Nada.

Bom, poderia ser de algum moço, pois esse tipo de adereço deixou de ser exclusividade feminina já tem tempo. Mas pelas cores formato e delicadeza, tudo levava a crer ser de alguma mulher.

Talvez tivesse sido presente de namorado ou noivo. A falta desse poderia gerar separação ou briga homérica. Fiquei apreensivo.

Segui meu caminho atento agora às expressões femininas. Uma moça magra, melancolia estampada no rosto, passou por mim.

Não tive dúvidas e a abordei com a mão aberta onde, como em porta-joias cintilava a flor:- Por acaso este brinco é seu?

Ela me olhou assustada. Foi como se a tivesse arrancado de forma violenta de um cismar longe. Olhos arregalados, vi ali medo. Balançou negativamente a cabeça e se afastou ligeira. Que mundo esse! Pensei sem tirar os olhos na joia. As pessoas andam com tanto medo pelas ruas que uma simples pergunta, mesmo acompanhada de um sorriso, parece ameaça. Desconversam e literalmente fogem de qualquer contato por menor que seja com estranhos. Seguros? Apenas dentro de suas casas fortalezas, cercadas de alarmes, câmaras, cães bravios e frascos e mais frascos de ansiolíticos.

Bem mais à frente, depois de muito procurar, em ato impensado, levei a mão com o brinco próxima à minha orelha, para um simples coçar a cabeça. Um murmúrio se fez ouvir.

Parei abruptamente e corri olhos de um lado a outro. Ninguém por perto.

Imaginação minha. Mas o som foi tão nítido. Novamente olhei à minha volta e, fingindo novo coçar levei novamente agora intencionalmente, o brinco junto à orelha. Um frio percorreu a espinhela e o coração acelerou. O brinco, simplesmente falou comigo!
Fechei rápido a mão e apressei o passo. Devo estar delirando. Coisas da imaginação. Brinco falante?!

Cheguei em casa esbaforido. Com olhos arregalados me tranquei no quarto. Brinco sobre a mesa. Puxei cadeira e fiquei bem perto a observá-lo.

Aproximei a cabeça de forma que minha orelha ficasse rente ao tampo de madeira, sentindo o cheiro de lustra-móveis. O sussurro pode-se ouvir agora um pouco mais nítido. Pude distinguir algumas palavras.

Estaria vivenciando uma experiência paranormal? Será que a dona daquela flor de metal queria fazer contato comigo? Talvez quem sabe, em ato de desespero por amor não correspondido, teria se atirado de alguma ponte, e agora, arrependia e do lado de lá, na escuridão das águas e a caminho do andar de cima, queria, através do brinco enviar para seu amado pedido de desculpas e que ele não se sentisse culpado por nada?

Ou quem sabe seria um comunicador alienígena? Povos de outro planeta ou dimensão abrindo canal de comunicação. Através de observações de séculos descobriram que o melhor lugar de se colocar um sistema arrojado de contato seria, hora vejam, num brinco?

Analisando todas as hipóteses só havia uma coisa a fazer: colocar tal brinco na orelha, torcendo para que ninguém me visse com aquela peça pendurada no lóbulo da orelha ou talvez no trago para melhor sintonia, e ir até o fim. Gente de outro planeta, contato com os que se foram e hoje habitam o andar de cima, de onde lá que viesse o contato, eu me via na obrigação de desvendar aquele mistério que poderia se tornar o acontecimento do século.

Vi-me dando entrevistas para todas emissoras TV e rádio do mundo. Twitter e Facebook não falariam em outra coisa. Do anonimato para o mundo. O staff de Oprah Winfrey brigaria de tapa com pessoal do Larry King por uma entrevista exclusiva com este que vos fala.

A NASA me convidaria para trabalhar na área 51, bem no meio do deserto de Nevada, onde coordenaria um projeto de contatos de terceiro grau, já prevendo e programando

visitas mútuas a planetas distantes. As empresas de softwares me ofereceriam milhões pela tecnologia que ali se encontrava bem à minha frente. Seria recebido por presidentes, ministros de Estado, reis e rainhas. Condecorado com medalhas de honra e com Prêmio Nobel de alguma coisa que, se não existisse, seria criado especialmente para mim.

Capa do “Times”, da “National Geographic”, do “BusinessWeek”. Seria entrevistado pelas revistas “Science” e pela “World Scientific”. Estúdios de Hollywood ofereceriam milhões pela exclusividade da história que viraria filme e sério candidato a vários Oscar, além de Palma de Ouro em Cannes.

O livro sobre o acontecido seria best-seller mundial, traduzido para cento e tantos idiomas.

Durou pouco essa tempestade de pensamentos-relâmpagos. Estes caíram por terra assim que coloquei o suposto brinco do espaço ou orelhão para conversar com os mortos. Ouvi nitidamente a forte voz melodiosa de Billie Holiday, que, como ave do paraíso, cantava “Tenderly”.

O surreal, o sonho, virou foi braveza. O danado não passava de uma miniatura ou nano Ipod que alguma moça deixara cair durante um passeio.

Era o cúmulo da miniaturização. Virando a peça de um lado para outro, acabei por perceber os botõezinhos de liga/desliga e de volume e ainda, bem embaixo em canto oculto, a prova de origem: Made in China. Tem coisa que só acontece comigo.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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