24/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 24/10/2020 às 08h00min

O pêndulo pode se mover

ALEXANDRE HENRY
Daqui a poucos dias, teremos um evento bastante importante para todo o planeta: as eleições para a presidência e para o poder legislativo dos Estados Unidos da América. Sim, por mais que você pense o contrário, o que acontecerá a milhares de quilômetros daqui terá chance de influenciar na sua vida, pois os EUA ainda são a maior potência econômica e militar do planeta e os passos que eles dão geralmente influenciam boa parte do mundo.

Há quatro anos, tivemos uma surpresa. Aliás, antes da eleição, já havíamos tido outra: a vitória de Donald Trump dentro do partido para ser o representante republicano na eleição presidencial. Abrindo um parêntesis, é interessante comentar que esse sistema de escolha do candidato que existe nos EUA é extremamente positivo, pois permite que seja feita, antes da eleição, uma lavagem de roupa suja dentro do próprio partido, sem medo de exposição dos pontos podres de cada um, para só depois se definir o nome que representará a agremiação no pleito eleitoral. No Brasil, ainda temos, na maioria das vezes, sistemas bem obscuros de escolha de candidatos, muitas vezes por meio de decisões pouco democráticas de caciques partidários. Mais do que isso, há toda uma tentativa do próprio partido de jogar para debaixo do tapete tudo o que possa macular a imagem de seu candidato na eleição. Nos EUA, antes de definido o representante do partido, é um vale-tudo às vezes asqueroso, mas que contribui para dar um pouco de banho de sol nos nomes que estarão nas urnas de votação.

Bom, mas voltemos às eleições de agora. Trump surpreendeu o mundo em 2016, mas chega ao pleito de 2020 em situação pouco confortável. É certo que o sistema norte-americano é bem complexo e que há casos frequentes nos quais, embora à frente nas pesquisas e mesmo levando a maioria dos votos dos eleitores, um candidato acaba derrotado por conta da forma de eleição que eles utilizam. Porém, se mantidas as previsões dos institutos de pesquisa, dificilmente Trump ocupará a Casa Branca em 2021.

Não vou entrar no mérito se isso é bom ou ruim, pois minha intenção aqui não é defender uma ou outra corrente política. Destaco apenas que, se confirmada a vitória do democrata Joe Biden, em uma eleição que poderá levar os democratas também ao controle de todo o legislativo de lá, presenciaremos um movimento claro no pêndulo que representa as tendências políticas e socioculturais. É o que já comentei aqui inúmeras vezes: o curso da história, especialmente nesses dois campos, é pendular. Ora vai para um lado, ora vai para o outro. Se, por acaso, um dos lados puxa o pêndulo demais, a tendência é que ele vá para o outro lado com mais velocidade e alcance.

Pegue a história recente do mundo ocidental. Aliás, vamos nos restringir a três países: EUA, Brasil e Argentina. Nesses três países, tivemos movimentos bem parecidos desde a década de noventa, ainda que não totalmente síncronos. Os argentinos tiveram Carlos Menem e nós tivemos Fernando Henrique Cardoso, ambos de centro-direita (ao menos, na minha visão) e com políticas neoliberais. Na mesma época, os EUA estavam com um presidente democrata no poder, Bill Clinton, mas que estava longe de ser um nome à esquerda do partido. Logo depois, os americanos tiveram George Bush, republicano conservador. O pêndulo político então mudou e a esquerda subiu ao poder: os Kirchner na Argentina, o petismo no Brasil e o democrata Barack Obama nos EUA. No âmbito sociocultural, embalado por essas presidências, tivemos uma forte tendência a medidas liberais, políticas de reconhecimento de minorias etc. E depois disso? Vamos para o outro lado de novo, agora com um pouco mais de força: Macri na Argentina, Temer e Bolsonaro no Brasil, Trump nos EUA. Ao mesmo tempo, retornaram com vigor ideologias no campo do conservadorismo social, como todos nós somos testemunhas.

Nossos vizinhos do sul já viram esse pêndulo se mover mais uma vez, com a eleição de Alberto Fernández, tendo Cristina Kirchner como vice. Agora, é a vez dos americanos, ao que parece. Mesmo que Trump consiga surpreender o mundo novamente e se reeleger, dificilmente fará seu sucessor em 2024. O mais certo, porém, é que saia por agora mesmo. No Brasil, por conta da saída traumática da esquerda do poder e de todas as acusações contra ela, é possível que o pêndulo demore um pouco mais a se movimentar. Talvez até não volte para a esquerda na próxima década, mas, ainda assim, a tendência é que a liderança saia dos campos ideológicos mais extremos à direita daqui a uma ou duas eleições.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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