25/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 25/10/2020 às 08h00min

A pandemia, o estressse e a “síndrome da cabana”

JOÃO LUCAS O'CONNELL

O ritmo de disseminação da Covid-19 vem caindo nos últimos meses. Apesar disso, novos casos continuam aparecendo e pessoas continuam morrendo. A esta altura, já conhecemos várias consequências físicas advindas da infecção aguda e muitas complicações causadas direta ou indiretamente pelo vírus nos diversos órgãos e sistemas do corpo humano. Porém, além de todos estes males físicos, bem quantificados e documentados através de inúmeros exames laboratoriais e de imagem, a pandemia trouxe também uma série de transtornos e sequelas psíquicas, que não podem ser tão bem quantificados assim.

Sabe-se que a pandemia aumentou, em muito, o nível de estresse, depressão e ansiedade na população! Isto aconteceu não só pelo medo do vírus em si, mas por outros motivos também relacionados direta ou indiretamente à pandemia: 1) medo de entrar em contato com outras pessoas ou objetos (pelo medo de entrar em contato com o vírus); 2) medo de desenvolver complicações graves relacionados a infecção e necessitar de hospitalização; 3) medo de sequelas pós Covid; 4) medo da morte; 5) medo de perder entes queridos; 6) medo de perder renda; 7) medo de perder o emprego; e por aí vai...A ansiedade frente ao desconhecido foi tanta, que boa parte dos pacientes mais jovens, que enfrentaram infecção, tiveram mais sinais e sintomas relacionados à ansiedade e ao medo do que da infecção propriamente dita. Mas, e agora que a pandemia está diminuindo seu ritmo de expansão? A ansiedade diminuiu?

É certo que uma grande parte da população perdeu o medo da Covid! Segundo os dados oficiais, mais de 80% das pessoas que enfrentaram a infecção tinham menos de 60 anos. E, como nesta população a taxa de letalidade é inferior a 1%, a maioria acabou por perder boa parte da ansiedade gerada pela possibilidade de ter que enfrentar a infecção.

É uma pena que, infelizmente, com a perda do medo veio também a perda do respeito pelo vírus. Muitos até agora não entenderam que a necessidade de evitar aglomerações e a intensificação das medidas de proteção individual e coletiva são necessárias não para sua própria proteção, mas, principalmente, para a proteção das pessoas mais idosas e mais frágeis, com as quais eventualmente possam entrar em contato. Entretanto, num país de extremos, uma outra grande parte da população continua extremamente ansiosa e temerosa de um eventual contágio futuro e continua muito apreensiva com a volta à rotina e com as medidas de flexibilização já adotadas.

A tentativa de retorno à rotina do período pré-pandemia, a flexibilização das medidas protetivas, a diminuição do distanciamento social, podem causar, em algumas pessoas, um fenômeno que os psicólogos chamam de “síndrome da cabana”. Trata-se de um estresse adaptativo descrito entre pessoas que podem passar por dificuldades emocionais ao terem que sair de um estado de retiro em sua casa e retornar às atividades habituais no trabalho, ao convívio social, ou que tenham que comparecer a um locais públicos com muita gente aglomerada (escolas, supermercados, comércios, agências bancárias, lotéricas, repartições públicas e outras).

A expressão “síndrome da cabana” foi inicialmente descrita para relatar vivências de pessoas que ficavam isoladas em pequenas cabanas durante longos períodos de nevasca no hemisfério norte. Após ficarem meses sem contato com outras pessoas, presas em suas cabanas por causa do inverno rigoroso, as pessoas tentavam retornar ao convívio social e apresentavam uma série de transtornos mentais, onde predominavam sintomas de ansiedade e medo, especialmente do contato com outras pessoas.

Ou seja, o medo de deixar a casa, o ambiente seguro, controlado e confortável no qual o indivíduo se manteve recluso por meses e enfrentar novamente a complexidade e os riscos do mundo exterior acabam gerando uma série de transtornos mentais em algumas pessoas. Além disso, o excesso de ansiedade gerado pela situação de retorno à rotina pode causar também distúrbios físicos como dores de cabeça, torácica, abdominal, gastrite, alterações do sono, do hábito intestinal ou urinário, taquicardias, arritmias, tremores, tonturas, falta de apetite, gula e vários outros sinais e sintomas em decorrência da ansiedade aumentada.

Não é fácil enfrentar este excesso de estresse. As mídias sociais e o aumento da comunicação com amigos e entes queridos via internet acabaram diminuindo o estresse provocado pelo distanciamento. Mas, além de estimular um maior contato virtual entre as pessoas, existem outras dicas que podem ajudar muito no combate ao estresse relacionado ao distanciamento ou do retorno à rotina pós-pico da pandemia: voltar a encontrar, primeiramente, familiares e amigos mais próximos (antes de entrar em contato com colegas ou desconhecidos); praticar meditação; dormir bem; manter os cuidados de higiene manual e respiratória já recomendados (se sentir mais seguro ao andar da rua é importante para retomar a confiança); se hidratar e alimentar bem; aumentar o contato com a natureza e com o sol e aumentar a frequência de atividade física semanal e de atividades de lazer também são outras estratégias muito interessantes que aumentam a imunidade, diminuem o estresse, e que trazem muitos benefícios àqueles que vêm enfrentando maiores dificuldades neste período de retomada. Cuide-se! Aos poucos, as coisas vão se ajeitando. O pior já passou! Vai ter Natal! E a ceia vai ser em família. Boa semana!

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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