09/10/2020 às 09h30min - Atualizada em 09/10/2020 às 09h30min

De árvores e fakes

WILLIAM H STUTZ

“A Noruega se tornou o primeiro país do mundo a se comprometer com o fim desmatamento em todo o território nacional, após decisão do Parlamento na semana passada. Para cumprir com a meta, o governo proibiu o corte de árvores e baniu a compra e a produção de qualquer matéria-prima que contribua para a destruição de florestas no mundo.” (Fonte Revista Veja)

Assim, com espanto e alegria e muita mineira desconfiança, recebi a notícia pelas redes sociais. Afinal, quase tudo que se torna viral na rede não passa de grandes bobagens e pior, tem sempre um mundo de gente que acredita e compartilha. Bom, se não o fizesse não se tornaria viral, ará!

Entendo a tão conhecida preguiça de ler das gentes que vivem coladas em aplicativos, redes sociais e há tempos, super felizes, passam grande parte de suas vidas caçando Pokemons. Tem um aplicativo, o Pokémon Go, que utiliza ferramentas de geolocalização e realidade aumentada, é um “MMORPG, ou seja, é uma sigla em inglês que significa “Massively Multiplayer Online Role-Playing Game”, designando games para uma grande quantidade de usuários, que utilizam muitos dos elementos existentes nos jogos de interpretação de papéis, os famosos RPGs”. (Fonte TecMundo)

Em sua grande maioria, os títulos desse gênero apresentam a possibilidade de criação de um protagonista personalizável, tanto em aspectos visuais quanto em atributos e características fundamentais no desenrolar do jogo, como força, magia e vitalidade.

Assim que ele é criado, você pode iniciar sua aventura por vastos mundos, em muitos casos inspirados por temas referentes à fantasia e ambientes repletos de mistérios, com diversas possibilidades e caminhos para trilhar.

Caçada esta até admissível para crianças e adolescentes, com parcimônia, é claro. Sobriedade e caldo de galinha nunca são demais. Mas velho barbado? Moça feita com carteira de motorista, matriculada em curso superior e de namorado a tiracolo? Tem dó. Usem esse tempo para ler um bom livro, uma revista que não seja de futilidades por favor. Aprende outro idioma, tocar um instrumento musical e ainda sobrar tempo para se exercitar e sair dessa mândria crônica.

Todos estamos sujeitos a pagar mico com as armadilhas das redes. Outro dia, (já tem tempo, mais de ano, assim como a notícia vinda da península escandinava), leio sobre a morte do genial escritor Ariano Suassuna, adjetivo bem empregado, viu mestre, esteja onde estiver, achando tratar-se de homenagem de sua partida – ele nos deixou em 2014 – não pestanejei e compartilhei preito. Sem ler, criatura, sem ler o link da postagem!

Só depois fui conferir fonte, postei sem ler, não tinha mais volta, a meada estava feita, algum babaca tinha postado ou compartilhado a velha matéria do passamento do grande escritor. Não demorou segundos, tenho amigos antenados e felizmente cultos em minha lista, veio a gozação cética.

Tentei apelar para o famoso “morreu para você filho (leitor) ingrato, pois continua vivo em meu um coração”, do folclórico ministro de JK, José Maria Alkmin. Não teve jeito, cai feito um patinho ou um alienado “webiano” da vida.

Esclarecimento: Quando reforcei o “Genial”, relembrei fantástica entrevista ao ler em jornal guitarrista da banda Calypso Chimbinha ser chamado de genial.

O mestre Suassuna disparou: “Se gasto adjetivo “genial” com Chimbinha, o que vou falar de Beethoven?”

E assim vamos levando a vida. Infelizmente os fakes, as mentiras sinceras ou não, os Pokemons, Chimbinhas e as novelas são mais palatáveis do que o duro cotidiano individual do ganhar o pão de cada dia.

Quantos realmente se interessam em saber que a Noruega proibiu corte de arvores? Qual a importância disso para a grande maioria das pessoas – não, "grande maioria", não é pleonasmo: “A metade, juntada a mais um, constitui a maioria; a grande maioria seria muito mais que isso, portanto a expressão não pode ser considerada um pleonasmo”.

Quem se importa? O que vejo todo santo dia são milhões de pedidos de corte de árvores, seja na rua ou nos quintais. E assim minha gente, por estas e outras, o velho e centenário Óleo de Copaíba, perto do Dmae, lá no alto, de tamanha tristeza e desgosto, inconformado com a gente humana, secou, morreu e só saudades deixou.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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