06/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 06/10/2020 às 08h00min

Percalços da medicina

ANTÔNIO PEREIRA
A história da escola de medicina vem de longe. Juscelino era governador. Havia na cidade um grupo de estudantes que queria escolas superiores. Os mais destacados foram: José Storti, Antônio Kawamoto, Adelson Ferreira Tavares, Glória Drummond, Caio Manoel Fructuoso e João Roberto Machado Spini. Quando JK veio para a Exposição Rural, lá estavam eles com a faixa: “Queremos Escola Superior”. Em 1962, tentou-se construir um Hospital de Clínicas, na Vila Martins, que não foi para frente. Quando o presidente Castelo Branco visitou Uberlândia, Primo Crosara pediu-lhe uma Escola de Medicina. Depois, formalizou o pedido por carta de 30 de março de 1965, e confirmou-o ao ministro da Educação, Muniz de Aragão. Na carta, pediu Faculdade de Medicina, Escolas de Enfermagem, Odontologia e Educação Física (esta já com projeto em trânsito). A coisa começou a firmar-se durante uma cirurgia, quando os médicos José Bonifácio Ribeiro e José Olympio de Freitas Azevedo trocaram ideias sobre a possibilidade de se criar essa escola. Assentado que havia, procuraram o deputado federal Rondon Pacheco que imediatamente se propôs a apoiar a criação de uma escola particular, já que o governo federal não se dispunha a criar escolas. Muitos médicos vestiram essa camisa: drs. José Olympio, José Bonifácio Ribeiro, Domingos Pimentel de Ulhoa, João Fernandes de Oliveira, Arnaldo Godoy de Souza, Renato de Oliveira Grama e outros. Não obstante o interesse de Rondon, muitas dificuldades tiveram que ser vencidas.

O governo não estava interessado em instalar escolas oficiais. Apesar das grandes doações recebidas, a verba era curta. Apelou-se para bingos, barraquinhas, rifas, quermesses. A Sociedade Médica não recebeu bem a ideia e, no início, resistiu a ela. O Ministério da Educação também se opôs porque a cem quilômetros daqui já existia uma Faculdade – em Uberaba. Dois anos antes, tentou-se implementar uma escola de enfermagem, sob a liderança do bispo dom Almir Marques Ferreira com o auxílio de alguns médicos católicos, porém, à época havia uma pendência jurídica entre a igreja e a maçonaria. Os médicos maçons e católicos não se entenderam bem e a divergência inviabilizou a criação da escola. O próprio Rondon Pacheco assustou-se com essa questão e achou temerário tentar-se uma escola de medicina quando a comunidade não conseguia instalar uma de enfermagem. Os estudantes de medicina de Uberaba também não viam com bons olhos a criação da nossa escola e o Ministro da Educação, em praça pública, naquela cidade, comprometeu-se em não deixar abrir aqui uma escola de medicina, pelo menos enquanto ele fosse Ministro. Talvez por isso, veio a Uberlândia um alto funcionário do Ministério para sugerir a criação de uma Universidade particular que englobasse a escola de medicina de Uberaba. Em conversa com os médicos José Olympio e João Fernandes, esse emissário garantiu o apoio e o prestígio do Ministério para a criação dessa Universidade, desde que abrissem mão da escola de medicina.

Não aceitaram. Tudo se venceu, mas os percalços pingavam de vez em quando. Para a escola funcionar precisava de docentes. Não havia. Alguns médicos com alguma experiência na área do ensino necessitariam de longa reciclagem e aprimoramento, coisa inviável sem deixar a clínica. Uns poucos fizeram esse sacrifício, estagiaram, estudaram e se habilitaram como os drs. Kasan e Miron. Alguns, antes, já haviam abandonado suas atividades clínicas em favor da escola: drs. Domingos Pimentel de Ulhoa, Arnaldo Godoy e João Fernandes. Muitos lecionaram de graça. É surpreendente que, entre estes, havia vários uberabenses. Instalada a escola, as mensalidades dos alunos não chegavam para as despesas do hospital que começou a somar dívidas até que Rondon, governador, autorizou a Caixa a fazer-lhe um empréstimo. À busca de verbas, conseguiu-se convênio com o INPS, mas isso acutilou os interesses do Conselho Regional de Medicina e da Associação Médica Brasileira que colocaram alguns diretores “na marca do pênalti”. O pitoresco disso tudo foi que o hospital não possuía cadáveres e nenhum paciente queria internar-se nas clínicas da escola – medo de morrer e ficar por lá. Só três meses depois de instalado o hospital internou-se o primeiro paciente “corajoso”. No dia 15 de novembro de 1966, foi lançada a pedra fundamental da escola, no dia 14 de fevereiro de 1968, foi autorizado o seu funcionamento e, em 1973, formou-se a primeira turma.

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Fontes: Jornais da época, dr. José Olympio de Freitas, A UFU no imaginário popular, Atas da Sociedade Médica


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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