02/10/2020 às 07h30min - Atualizada em 02/10/2020 às 07h30min

Isadora e suas regras ou: como ser mãe de sua mãe e de seu pai

RAQUEL DUPRAT

Isadora soube desde o início que não se tratava apenas de fazer isso ou aquilo, mas de insistir, e firme como uma torre, pôr-se de prontidão na porta de entrada. E assim foi entendendo que não se tratava também de estar perto simplesmente, mas de estar quase dentro e ser o fim na distância que os separavam de si mesmos.

"Serei o elo ou uma ponte, a forma mais breve de ajudá-los a fazerem suas travessias. E depois, ser-lhes-ei asas", pensava Isadora com seus botões.

Primeira regra: a gente costuma dar de volta o que recebeu, mas é preciso aprender que isso é pouco. Pai e mãe precisam do que não temos também. "Vou lhes arranjar motivos para se mexer", concluiu. E procurarei os motivos em razões secretas que só nós três saberemos. Não os deixarei a esmo, nem muito tempo sentados e se necessário, porei um balde de água fria sob seus pés.
Também oferecer-lhes-ei água e não aceitarei não como resposta"

Segunda regra: mãe e pai são para serem irrigados. Espera-se que você  tenha observado sua mãe e seu pai pela vida afora e que os reconheça  em cada canto da casa, em cada móvel, saiba seus lugares preferidos no sofá, seus livros amados e relidos e o porquê

Terceira regra: é pelos detalhes que você pode conquistá-los.
Isadora, feliz, vê que conhece sua mãe mais do que pensava. Sabe como ela gosta de cada detalhe da casa, os motivos de cada disposição dos moveis, o porquê de cada desleixo e reconhece a emoção em cada distração, em cada esquecimento. Ela arrumará, por exemplo, aquele quartinho de costura parado, empoeirado e cheio de teias de aranha. Pretende limpar e perfumar e por óleo na máquina, enfeitar, levar o sol pra dentro, abrir a janela emperrada. Colocará óleo na janela pra coisa durar.
Dará importância ao sol e mostrará à sua mãe como pode ser bom o cuidar, iluminando-se.

Quarta Regra: é preciso  descobrir as emoções das coisas que lhes iluminaram a vida.
Isadora já arrumou, por exemplo, a capela: um quartinho de 2 x 2  em que encheu de imagens de sua religião, velas e livros; Pôs ali poltronas ainda da época  de sua infância. E a recompensa foi imediata: Ela e sua tia ficaram lá por 3 horas depois da limpeza, conversando. Sua mãe aos 93 e a tia aos 80 sob o perfume da limpeza e o frescor dos baldes de água na capela de 4 metros quadrados. De longe, ouvindo, Isadora percebeu o quanto a voz de sua mãe era imponente, afinada e lembrou-se que ela cantava maravilhosamente bem. Sentiu vontade de cantar também.

As duas lembravam-se dos parentes e contavam de seus  esquecimentos: "Nossa!, como pude me esquecer de fulana!..fui madrinha de casamento dela"...dizia sua mãe, arrependida. E pensou Isadora imediatamente nos amigos, primos e tios de que também andava esquecida.

Quinta Regra: Ser mãe de mãe nos devolve a nós mesmos.
E ela por fim percebeu que a luz que ilumina agora sua mãe não são mais os fatos, mas as lembranças, a memória. Almeja assim reavivar cada canto destas lembranças, acender a luz em cada esquecimento e se possível, fazê-la entrar em contato. Para isso, decidiu "trabalhar" com sua agenda. Pegará da letra A à Z e pedirá a ela contar quem são aqueles nomes ali. Esta será sua próxima aventura, uma espécie de contos das 1001 noites contados em plena luz do dia.

Sexta Regra: a memória para os velhinhos ( não só) é a tessitura da vida.
E ainda a oficina de consertos de seu pai também estava cheia de motivos para eles seguirem consertando a vida.  Cada parafuso podia apertar a relação, colocar no lugar um afeto solto. Lembrou-se Isadora que os afetos em seu pai andavam desacordados. E arrumou então o tempo de estar lá com ele. Alinhou-se e colocou no eixo algumas lembranças e dores soltas. Jogou fora peças estragadas. Consigo, praticava lenta e silenciosamente o desapego.

Sétima Regra: Desapegar do que não serve mais pode ser um ótimo começo.
Ha uma infinidade de coisas a se fazer para se conhecer melhor uma mãe e um pai, e ela faria. Sabia que deveria acorda-los, mantê-los despertos, crentes, salientes. Seria para eles uma espécie de salva vidas em alto mar. E assim sendo, salvaria sua própria vida também, e a dos peixes, e as marés, e prolongar-se-ia o pôr do sol no mar revolto. Que a vida tivesse sentido suficiente para ser esperança e bálsamo para o tempo um pouco dolorido de seus pais era tudo que ela queria. Não os deixaria se esquecerem tanto. Queria lhes esvaziar de perdas. E Isadora se encheu de ganhos. 
E foi assim que Isadora tornou-se mãe. Mãe às avessas de si mesma. Na oficina do tempo, construiu a barca com a qual sua filha a levaria, um dia.

Dormiu enfim,  tranquila seu sono de mãe costurado no futuro de sua filha e de seus pais. Água por perto, fruta na fruteira e muita linha na agulha de Isadora a costurar o tempo de ficar junto. Por que nada é para já. Mas o que se dá é para sempre.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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