29/09/2020 às 08h00min - Atualizada em 29/09/2020 às 08h00min

O mistério oculto do Teatro Oficina

ENZO BANZO
No começo dos 2000 eu fazia parte de um grupo, o Taturana, e tínhamos um programa na Rádio Universitária, de nome Escombro. Com vinte e poucos anos, eu era o mais jovem da turma, formei ali muito do meu repertório: a cada programa, os comparsas chegavam com pilhas de LPs para fecharmos um roteiro. Depois de uma prévia e de uma hora e meia no ar, ainda ficávamos horas e horas conversando na área externa da RTU; essa parte do programa, muitas vezes a melhor, era só nossa.

Recorrentemente, nessas conversas o Eduardo Bernardt, um dos taturanas, divagava longamente sobre o Teatro Oficina, de São Paulo, sobre a experiência libertadora e libertária que era estar no meio de uma daquelas performances, muito além do mero assistir, do mero entretenimento. "As bacantes" pra lá, "Os sertões" pra cá, arquitetura de Lina Bo Bardi em um teatro diferente de qualquer teatro. Eu já lia muito sobre a Tropicália, e lá estava, em 1967, Caetano Veloso apontando o papel crucial do Oficina na construção do projeto tropicalista, recuperando Oswald de Andrade na montagem de "O rei da vela", peça oswaldeana dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa, entidade dionisíaca acendedora de tudo aquilo.

Foi assim que, mesmo sem ira ao Oficina, o Oficina compôs a minha formação, e a dos grupos que participei e participo, numa (des)orientação de visão de mundo, na (anti)fórmula oswaldeana de transformação do tabu em totem. Não por acaso, ou pelas belezas do acaso, nosso guitarrista porca borboleta Moita Mattos foi parar no Oficina; há alguns anos, Moita toca guitarra em peças da companhia, e foi só com Moita no palco que finalmente cheguei ao solo transcendente do Oficina para estar dentro das remontagens de "As bacantes" e "Roda viva". Na primeira ida, o taturana Eduardo estava lá (organizou uma van de Uberlândia para isso); de onde eu olhava, o rito era completo. Vim atrás do "vim", e vi, e bebi.

Rito antropofágico. Não seria pouco dizer que, depois das telas de Tarsila do Amaral, o Teatro Oficina seja a experiência que com maior força materializa este princípio crítico-devorador e inovador: porque a antropofagia é um rito, e estar em uma peça do oficina é participar de um ritual dionisíaco, acessando e deglutindo o que há de mais ancestral, sem qualquer amarra de racionalidade, alcançando o mais além-contemporâneo. O corpo é livre, qualquer corpo; o vinho é para a sede de tudo, o brinde é dos copos e dos corpos.

E como manter esse acendimento nesses tempos terríveis em que o mais seguro é se isolar dos outros corpos? Nesse final de semana, eu e Mariana Anselmo assistimos (ou melhor, participamos) de "O balaio do Deus Morto - A Live", por uma das plataformas de reuniões virtuais com as quais já acabamos por nos habituar. Assim como a oswaldeana "O rei da vela", trata-se de uma peça de um vanguardista da primeira metade do século, Flávio de Carvalho. A obra é de 1933. Estamos no futuro.

Mas a montagem do Oficina, com direção de Marcelo Drummond, não é uma adaptação de uma performance do palco para a tela, tampouco uma live como as que costumamos presenciar. Tabu transformado em totem, a tecnologia da transmissão passa a ser elemento estético construtivo da criação, concebida para ser assim; cada artista está em sua casa, assim como nós, o público. As telas se alternam, os rostos sob máscaras, os sons se ajuntam e nos hipnotizam: um minuto de fome; um minuto de medo; onde está o mistério oculto? Aonde estão os homens perplexos? Turbulência mental. Estamos perplexos. Está deflagrado o rito, conexão dos corpos adentro e para além, Baco entre nós.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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