26/09/2020 às 08h00min - Atualizada em 26/09/2020 às 08h00min

A crise do liberalismo

ALEXANDRE HENRY
Dias atrás, andando de bicicleta com um amigo empresário, ele me disse que era favorável à tributação de heranças. “Alexandre, tenho uns conhecidos que estão lançando um loteamento novo agora em Uberlândia. Eles nunca mais vão precisar trabalhar” – disse ele. Esse meu amigo é liberal do ponto de vista econômico, tendo inclusive frequentado eventos promovidos pelo Instituto Misses, organização liberal que, entre outros objetivos, defende “a economia de mercado, a propriedade privada, e a paz nas relações interpessoais, e opor-se às intervenções estatais nos mercados e na sociedade”. Mas, acho que ele e mais alguns liberais já perceberam que algo não está certo.

Segundo estudo da ONG Oxfam, com base em dados extraídos da lista dos mais ricos da Forbes, entre 18 de março e 12 de julho, o patrimônio dos 42 bilionários do Brasil passou de US$ 123,1 bilhões para US$ 157,1 bilhões. Sim, você leu direito: em pleno auge da pandemia, os bilionários só do nosso país ficaram 34 bilhões de dólares (não de reais) mais ricos. E a pessoa que mais tem dinheiro no mundo? Jeff Bezos, o fundador da Amazon, superou a barreira dos 200 bilhões de dólares de fortuna pessoal, o que dá mais de um trilhão de reais. O orçamento do nosso governo federal para a saúde, durante o ano todo de 2020, não chega a 15% desse valor. Os valores da educação, em nível federal, são menores ainda. A fortuna de Bezos é igual ao PIB da Nova Zelândia, um país desenvolvido com cerca de cinco milhões de habitantes. Acontece que, atrás da Nova Zelândia, no que diz respeito ao PIB, ainda existem mais de 140 países e alguns bilhões de habitantes do planeta terra.

Vamos a mais alguns números. Falando dos Estados Unidos, nação mais rica do planeta e um dos reinos do liberalismo econômico, os dados de renda da população americana indicam que, de 1980 para cá, o valor médio dos rendimentos anuais brutos dos 50% mais pobres do país aumentou meros US$ 200, para US$ 16,6 mil ao ano. Ao mesmo tempo, indica reportagem da Folha de S. Paulo, a renda média anual bruta dos 10% mais ricos dobrou (para US$ 311 mil); e a do 1% no topo triplicou (US$ 1,3 milhão). No Brasil, continuamos com um dos maiores índices de desigualdade do mundo, perfilados ao lado de várias nações africanas nas quais a desigualdade tem raízes profundas.

Agora, vamos juntas os pontos. Com o fim da União Soviética e dos regimes socialistas no leste europeu, a antiga guerra entre modelos econômicos (capitalismo x socialismo) teve fim, com um vencedor dançando praticamente sozinho no salão da economia mundial. Ganharam força as correntes que, com base no desastre que foi a tentativa de aplicar as ideias de Marx durante do século XX, pregaram que o único caminho possível era o do capitalismo de livre mercado, com uma intervenção mínima do Estado na economia. Enfim, o velho “deixe quieto que o livre mercado, a concorrência aberta e outros mecanismos naturais são suficientes para trazer o equilíbrio e a paz social”. Poucas décadas depois da queda do muro de Berlim, porém, o que presenciamos é um aumento brutal das desigualdades sociais, com o capital passeando livremente pelo planeta e se concentrando cada vez mais nas mãos de pouquíssimas pessoas. Pessoas, aliás, que são as financiadoras de boa parte das candidaturas eleitorais nos países democráticos e que, com isso, conseguem a aprovação de leis cada vez mais benéficas a esse “livre mercado” tão necessário para aumentar a concentração de renda em suas mãos.

Sempre digo que, quando o pêndulo vai muito para um lado, há grandes chances de ele passar para o outro de forma abrupta e descontrolada. A insatisfação com esse estado de coisas cria um terreno fértil para o ressurgimento de políticas com viés socialista ou, o que já estamos vendo, de políticos populistas e demagogos que têm uma forte queda por controles totalitários.

Eu nunca fui dos extremos e sempre acreditei que a virtude está no meio termo. Por isso mesmo, por não desejar nenhum dos dois cenários radicais (à esquerda ou à direita), creio que passou da hora de repensarmos essa questão das políticas estatais que cuidam de reduzir as desigualdades sociais. Sem que algo seja feito, não teremos paz alguma nas relações interpessoais, como deseja o Misses. Intervenção mínima do Estado na economia, sim, mas não tão mínima que provoque uma concentração de renda desumana e permita que poucas centenas de pessoas no mundo tenham mais recursos do que bilhões de outros seres humanos.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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