30/08/2020 às 08h00min - Atualizada em 30/08/2020 às 08h00min

Capacidade e vontade

ALEXANDRE HENRY

Em 2018, eu programei uma viagem para a Áustria, pois uma prima minha iria se casar lá. Viagem já decidida, eu pensei: por que não aprendo um pouco de alemão para me comunicar? Comprei um livro e assinei um aplicativo de ensino de idiomas, confiante na minha capacidade de aprendizado solitário.

Não, eu não aprendi alemão. Gravei uma ou outra palavra que já me ajudou, mas não deu certo. Dizem que a vida é muito curta para se aprender aquele idioma e eu decidi que tinha coisas mais urgentes para colocar dentro da minha cabeça. Mas, pode ter certeza de uma coisa: eu iria conseguir aprender aquele troço se eu quisesse mesmo. Evidentemente, como não tenho um dom natural para línguas, iria me tomar um tempo danado. De toda forma, se realmente fosse um projeto de vida, eu conseguiria chegar a um bom nível de comunicação na língua de Hegel, Marx e Nietzsche.

Eu não sou presunçoso e não me acho melhor do que os outros. A questão é simplesmente a forma de enxergar a vida quanto a aprendizados e outros tipos de desafios. É certo que algumas coisas dependem da parte física e de começar cedo, como ser um ginasta olímpico de ponta. Mas, fora exceções como essa, o resto não depende muito de genética. Depende, sim, de você tentar e, principalmente, de persistir. Voltando para a questão dos idiomas, eu me arrastei no aprendizado do inglês por quase três décadas, até que perdi a paciência comigo mesmo durante uma viagem em que eu não entendia praticamente nada do que o povo falava. Voltei para o Brasil decidido a ficar bom em ao menos nessa habilidade da língua, ou seja, na audição. Achei um programa de um professor americano chamado “ESL Podcast” e gostei dele. Cada episódio tinha trinta minutos e ele falava de forma pausada, repetindo e explicando algumas palavras. Ao longo de três anos, ouvi a bagatela de seiscentos episódios de trinta minutos cada um. Você não leu errado: eu ouvi trezentas horas daquele “podcast” de inglês. Meu ouvido melhorou para o inglês? Bem, hoje eu ligo a TV e assisto a um programa com um nível de compreensão muito bom.

Qual a diferença entre minha relação com o inglês e minha relação com o alemão? A diferença foi meu comportamento diante do aprendizado de cada um deles. No inglês, fui a fundo, persisti e consegui, ao menos, ter uma boa audição (a fala ainda está bem ruim). No alemão, parei logo no começo.

É fato que, como eu já disse, foi uma questão de escolha. Ainda assim, o exemplo vale para praticamente tudo e aqui é o ponto principal aonde quero chegar: pare de dizer que você nunca vai dar conta de fazer ou de aprender alguma coisa. Diga, com toda sinceridade, que você não quer aquilo ou que não tem energia e nem vontade de persistir. Isso fará de você uma pessoa mais sincera consigo mesma e abrirá as portas para muita coisa boa. Que coisa boa? Simples: a partir do momento em que você passa a enxergar os desafios do mundo com as lentes da vontade, não com as lentes da capacidade, você tem muito mais controle das rédeas de seu destino. A frase é meio brega, admito, mas é verdadeira. Não é que eu não consiga correr uma maratona. Eu até consigo, pois, há três anos, meu recorde de corrida era apenas de um quilômetro sem perder o fôlego e, hoje, já consigo correr dez quilômetros sem parar. Mas, eu não quero correr uma maratona. Está bom assim para mim.

Quando você olha tudo pela lente da capacidade (ou seja, de ter nascido com certo dom para aquilo), você comete duas falhas. Primeiro, desmerece o esforço dos outros. “Ah, eu não tenho essa facilidade com inglês que você tem e, por isso, nunca vou conseguir assistir a um programa sem legenda” – você diz. Opa! Calma lá! E as trezentas horas de “podcast”? E os jornais em inglês que ouço todos os dias para não desaprender? Não desconheço que há pessoas com dom para línguas, para correr maratonas ou tocar piano. Mas, mesmo essas pessoas treinaram muito. Então, não olhe o mundo pelas lentes da capacidade porque, ao fazer isso, você vai ser injusto com quem se esforça. Segundo, e principal, quando você passa a usar as lentes da vontade, quando você divide os desafios entre “esse, eu quero encarar” e “aquele, não me interessa”, você eleva sua autoestima e passa a perceber que é capaz de muito mais coisa do que imaginava.

Em resumo, entenda que praticamente tudo na vida não é questão de dom, mas de vontade de encarar as dificuldades que cada desafio apresenta e, principalmente, de persistir quando essas dificuldades aparecem. Só isso. Poder, você pode. Resta saber se tem vontade.

* Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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