14/08/2020 às 14h54min - Atualizada em 14/08/2020 às 14h54min

Uma sexta qualquer

WILLIAM H. STUTZ
Queria deixar para explicar o título no final, mas pode ser que alguns parem de ler logo de cara e ainda me acusando de pouco criativo e plagiador, pois então...

O título deste pequeno escrever é uma homenagem ao fantástico Carlos Ruas, designer gráfico, autor de uma das mais divertidas webcomics da atualidade: “Um Sábado Qualquer”. Se não conhece recomendo, dá um Google que acha.

Quando a gente pensa que já viu e ouviu de tudo acaba sendo pego em situações de morrer de rir ou de chorar. Nem precisa falar o tempo que ficamos na web neste período de isolamento. Leio em média um livro por semana, mas ainda sobra muito tempo para grupos de WhatsApp, postar no Instagram e dar umas voltas no Facebook, que é o maior campo de batalha ideológica/ imbecil/ fascistoide de todos, depois do Twitter. Não perco tempo rebatendo comentários que vão contra tudo que acredito e me dou ao luxuoso prazer de simplesmente apagar de meu convívio virtual gente desse tipo. Quer perder minha insignificante companhia virtual? Basta publicar comentário homofóbico, racista, misógino ou outro qualquer de cunho fascista. Num simples apertar de tecla estará o energúmeno e sua presença binária enviado para o vazio da deep web, a face negra da “força”.

Enfim, ficamos mais tempo do que o normal seja este normal qual for, pois varia de gente para gente.

Num destes passeios sem destinos me deparei com uma propaganda mais ou menos assim: “Vendemos lanternas profissionais à prova d’água para todos os fins, apenas na cor preta. Seu alcance é de dois km e ilumina como o dia, ótima para acampar, pescarias e dias em que a energia acaba. Se você não pagou a conta de luz este mês seus problemas acabaram, à bateria recarregável nossa lanterna tem duração de 22 horas, luz plena para todos. Só não pode apontar seu facho para os olhos de outras pessoas, pois o risco de causar danos permanente é grande, só se for um assaltante, pode ser usada como arma de defesa.

Pode ser adquirida em nosso site pela módica quantia de 260 reais à vista no cartão ou boleto em até 12 vezes sem juros. Frete grátis para todo Brasil. Mais detalhes em nosso site. Mas corra, restam poucas unidades e a próxima remessa sabe-se lá quando vem, pois nosso produto é fabricado na China e parece que o atual governo a imitar o seu ídolo do norte não tem amores por aquela nação que trata pejorativamente de “aquele país”.

Até aí nada demais, um anúncio, um reclame, uma propaganda como tantas outras. Aí meus caros e minhas caras, lá vou eu para os comentários e pasmem com que encontro. Listo aqui algumas das perguntas feitas ao vendedor.

Adorei, eu quero! Tem azul? Essa lanterna é à prova d’água? Quanto tempo dura a bateria dela? A bateria é recarregável? Moro em Ji-Paraná no estado de Rondônia, quanto fica o frete?  Nossa adorei mesmo, quero uma (e marca um @fulano para que fique sabendo da super lanterna). Posso parcelar no cartão ou tem que ser no boleto?

Olhem, as mesmas perguntas são repetidas diversas vezes por pessoas diferentes, às vezes três, quatro vezes seguidas.

Não sei se alguém já reparou nessas prosas. Aí chegamos à já sabida conclusão de que a roda é redonda e a grande, a imensa maioria de nós tem uma preguiça gigantesca de ler. E mesmo quando tenta ler parece não absorver quase nada. Como no anúncio acima, parece que só sabem que é uma lanterna à venda e fim. Seguro é que todas as vezes que você vai publicar um texto maior em suas redes você primeiro avisa:  — Olha é textão!

Mais seguro ainda é que quem recebe franze a testa, suspira fundo e passa para a próxima mensagem, não sem antes deixar o comentário mais falso do mundo “— Nossa adorei!”  Se você estivesse falando mal dela passaria batido.

Tenho grande receio do que vem por aí. Os pequenos de hoje talvez esqueçam as letras e a escrita, talvez voltemos a nos comunicar apenas por emojis! Já existe até uma Emojipédia!

Se em algum século não muito distante os viajantes do tempo aqui aportarem vão achar nossa primitiva escrita emojiana tão primitiva quanto aos hieróglifos hieráticos, os mais simples possíveis.

Resta-nos torcer por algum tipo urgente de mudança. E essa, só depende de nós e de como enxergamos e desejamos a vida de nossos filhos e netos.

Nada, nada substituirá em tempo algum o abrir um livro. A textura, o cheiro de papel, o virar de uma página, e claro, as viagens que fazemos sem sair do lugar. Monteiro Lobato do qual saboreei toda sua obra ainda criança e depois na juventude tinha razão. “Quem não lê, mal ouve, mal fala e mal vê”.
 


Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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