21/07/2020 às 14h25min - Atualizada em 21/07/2020 às 14h25min

O pôr do sol

ANA MARIA COELHO CARVALHO
No livro “O Pequeno Príncipe”, o principezinho morava em um planeta bem pequeno. A sua vidinha era melancólica e por muito tempo sua única distração era a doçura do pôr do sol. Podia contemplar o espetáculo várias vezes por dia, bastava afastar sua cadeira para pontos diferentes do planeta. Em certo trecho, ele comenta com seu amigo aviador: - “Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!” E um pouco mais tarde, acrescentou: - “Quando a gente está triste demais, gosta do pôr do sol...” O aviador perguntou:- “Estavas tão triste assim no dia dos quarenta e três?” Mas o principezinho não respondeu.

Também gostaria de ver o sol se pôr várias vezes num mesmo dia, não por tristeza, mas pela beleza do espetáculo. Felizmente tive oportunidade de assistir a um pôr do sol inesquecível, valeu pelos quarenta e três do principezinho. Não apenas pela magia e doçura, mas pela singularidade do local de observação, pela história de vida do proprietário e pelo respeito demonstrado pelos turistas. Tudo aconteceu na Casapueblo, em Punta del Este, Uruguai. O lugar é hotel, museu e ateliê do renomado artista uruguaio Carlos Paez Vilaró, de 89 anos. Ele é pintor, escultor, compositor, escritor, muralista e construtor. Casapueblo é a sua “escultura viva” em frente ao mar, toda branca, formada por partes arredondadas que simulam os ninhos de barro do pássaro Forneiro, comum na região. Foi construída à mão, em vários estágios, durante 30 anos, e todos os quartos, salas e varandas são voltados para o mar e ligadas por corredores que formam um verdadeiro labirinto. Quando Vilaró terminou a construção percebeu, surpreso, que a cidadela havia ficado com a forma do mapa do Brasil. No museu encontram-se quadros e esculturas do artista, com cores vibrantes e que abordam principalmente os temas cultura afro uruguaia e mulher. Cada cor tem um significado: o azul colonial é nostalgia, o branco é ansiedade de ser cor, o verde é vida, o rosado é o amanhecer do amor. Em uma sala, os turistas podem assistir a um filme sobre o artista, no qual Vilaró narra suas viagens e mostra suas obras ao redor do mundo. Conta do acidente em 1972 com o filho, Carlos Miguel, que viajava de avião e este caiu na cordilheira dos Andes, no Chile. Depois de 72 dias, 16 sobreviventes foram encontrados e entre eles estava seu filho. No filme, a descrição que Vilaró faz do abraço que deu no filho, quando o encontrou, dá vontade de chorar. Vilaró nunca desistiu de procurá-lo e conversava com ele todas as noites, olhando para a lua (escreveu o livro “Entre mi hijo y yo, la luna”).

Assim, num local construído por uma pessoa tão especial, centenas de pessoas esperavam o pôr do sol do alto da Casapueblo, olhando a vastidão do horizonte se encontrando com o mar. Matizes de vermelho, laranja e roxo cobriam o céu (eu não sabia que o roxo combinava tanto com laranja). Momento de silêncio, de respeito, de magia. Hora de agradecer a Deus por mais um dia, pelos momentos difíceis e pelos bons momentos, de sentir que a vida vale a pena. Uma foto, um abraço, um afago, o vento no rosto, o barulho do mar, o céu colorido, o sol como uma imensa bola de fogo baixando devagar. Quando desapareceu, as pessoas bateram palmas e algumas brindaram com vinho. Ao fundo, a voz gravada de Vilaró: “tchau, sol, te quiero mucho, gracias por tu encanto”. Tudo muito lindo, até senti a presença do Pequeno Príncipe por lá. E de Deus também.




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