23/06/2020 às 09h44min - Atualizada em 23/06/2020 às 09h44min

Uberlândia e o enfrentamento da pandemia: poderia ser diferente?

Arquimedes Diógenes Ciloni, ex-reitor da UFU
Com mais de um milhão de casos e às vésperas de se testemunhar a triste marca de cinquenta mil mortes no Brasil (estudo de uma Universidade americana que previu esta marca trágica para final de junho aponta agora que o país poderá ter mais mortes que os Estados Unidos ao final de julho), sem perspectiva de vacina e um antiviral efetivo, a experiência de outros países comprova e reforça que a única medida que funciona e ainda apresenta resultados efetivos no combate à Covid-19 é o isolamento social. Verifica-se com tristeza que tudo o que está ocorrendo na epidemia do novo coronavírus, desde que ela deixou de ser circunscrita à China, era espantosamente previsível. Com o Ministério da Saúde quase à deriva, nosso país perdeu completamente a sua capacidade de reagir à expansão da doença, sendo hoje um mau exemplo para o mundo no enfrentamento de uma epidemia. No Brasil, desacreditar a gravidade da pandemia ao chamar de gripezinha ou mesmo a invenção de saídas fáceis como um medicamento mágico, tal como a cloroquina, desobriga o governo de adotar uma política eficiente de enfrentamento da situação. O dilema gerado impacta a população e cria expectativas e esperanças, por isso é tão eficiente na sua intenção de disseminar confusão.

Evidencia-se também estratégia de responsabilização de terceiros pelo fracasso da contenção da pandemia que é comum aos dois gestores, o federal e o municipal.  O Presidente da República transfere a responsabilidade para os governadores e prefeitos alegando que o STF retirou dele o poder de decidir sobre as ações, quando na verdade o Supremo impediu que desautorizasse as poucas iniciativas de isolamento social que estiveram em prática. Nesse contexto, o isolamento social deixa de ser uma ação do estado brasileiro para contenção da pandemia para ser uma arma política de destruição da economia e, por sua vez, do governo Bolsonaro. Resultado concreto: acabou municipalizando a crise, com o que se vê o prefeito mais sensível a pressões dos que querem acabar com o isolamento! Em Uberlândia, o prefeito transfere a responsabilidade para a população, dizendo o tempo todo que ouviu o anseio popular pela abertura dos serviços e que o mau comportamento da população o obrigaria a fechar novamente. Nessa inversão, o isolamento social deixa de ser uma prática de prevenção e cuidado para se tornar uma punição. Em nossa opinião, o senhor Prefeito deveria preparar imediatamente fechamento rigoroso ao menos pelos próximos quinze dias, acompanhado de medidas de suporte aos mais desassistidos. Ao invés, se constata falta de firmeza para manter isolamento controlado e de forma prolongada, tentando-se vender a ideia de maior controle da epidemia por suspender o comércio no final de semana, quando na verdade o que ocorre é maior abertura com liberação geral durante a semana, ação mal planejada que resultou em impacto nocivo depois de 14 dias, como mostram os boletins diários emitidos pela Prefeitura, conforme acompanhamento do crescimento de casos na cidade.

O desprezo pelo conhecimento socialmente produzido é outra triste marca do governo federal. Em Uberlândia, o desrespeito em relação à Universidade se faz de outra forma, desconsiderando sua existência e importância, impedindo que os estudantes possam frequentar a rede de serviços e assistência e evitando o diálogo com pesquisadores e docentes que poderiam colaborar com a gestão da crise. Cite-se como exemplo o conhecimento das famílias e suas condições de risco social pelas análises e visitas domiciliares das equipes da saúde da família da UFU, que sequer foram consultadas. A UFU, que está sempre pronta a colaborar com o município, poderia ter contribuído muito mais, se chamada a cooperar.

Nenhum dos governos investiu em informação correta para a população ter condições de compreender e participar ativamente das propostas. A existência (e o aumento) de leitos e a aquisição de medicamentos e testes são as ações que eles apontam como de responsabilidade do executivo e consideram que fizeram o suficiente. Essa é uma posição de quem não compreende o que é e como funciona uma política de saúde. Por exemplo, pode-se apontar que ambos os gestores, federal e municipal, perderam a chance de utilizar a Estratégia da Saúde da Família já mencionada como modo de fazer a informação qualificada chegar aos territórios, utilizando-se o Cadastro Único como forma de mapear as vulnerabilidades e pensar as estratégias de proteção antes que a fome chegasse até a casa das pessoas. Nós utilizaríamos a “pista social” desenhada pelo bolsa família, pelo Cadastro Único, pelos registros dos Centros de Referência em Assistência Social (os CRAS e CREAS distribuídos pela cidade). Não seríamos tão surpreendidos pela crise porque reconhecemos e valorizamos as políticas públicas que nosso Partido dos Trabalhadores construiu ou ajudou a construir.



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