06/06/2020 às 13h39min - Atualizada em 06/06/2020 às 13h39min

Burro ou mal-intencionado?

ALEXANDRE HENRY
Reportagem do consagrado jornal “Financial Times”, nesta semana que passou, abordou o modelo japonês de controle da pandemia, que não contou com isolamento social obrigatório, mas, ainda assim, as contaminações e o número de mortos têm sido baixíssimos.

Vou transcrever parte da reportagem para ficar mais claro: "O Japão percebeu o que estava acontecendo e começou a reagir antes que o vírus se instalasse", disse Satoshi Hori, especialista em controle de infecções e professor na Universidade Juntendo. ‘Foi uma vantagem local’. Sem nenhuma instrução oficial, a população começou a esterilizar as mãos, a usar máscaras e a praticar distanciamento social por vontade própria. ‘Todo mundo usou máscaras para se proteger, mas o efeito real foi reduzir a propagação por portadores assintomáticos da Covid-19’, disse o professor Hori. ‘Pode ter sido sorte, mas fez a diferença’ - complementa. (...) O estado de emergência não obrigava as pessoas a ficarem em casa, mas muitas respeitaram o pedido. ‘O bloqueio moderado no Japão parece ter tido um efeito de bloqueio real’, disse ele. ‘Outros países podem não ter o mesmo nível de aceitação a uma solicitação não compulsória’, disse o professor Hori”.

Saindo do Japão e vindo para o Brasil, deixei de comprar pão em um supermercado perto da minha casa. Mesmo depois de várias normas estabelecendo o uso obrigatório de máscaras, o pessoal da padaria de lá simplesmente não usava. Não dava para falar que não tinha: até tinha, mas estava sempre no queixo ou, quando muito, cobrindo só a boca e deixando o nariz de fora. Falei com os funcionários e com o gerente mais de uma vez, sem sucesso. Passei então em comprar em outra padaria, uma do bairro mesmo. Bom, não é? Fazendo essa mudança, eu evitaria riscos sanitários e ainda ajudaria um pequeno comerciante ao invés de dar meu dinheiro para uma grande rede de supermercados. Porém, logo percebi, olhando pela porta que mostrava a cozinha da panificadora, que o pessoal da produção de lá também estava tudo com máscara no queixo.

Agora, estou comprando em uma nova padaria, mas com a certeza de que o risco de ter pessoas contaminadas manipulando alimentos é gigantesco. O povo simplesmente desobedece as regras e ponto final. “Ah, mas quem disse que a máscara realmente protege?” – já ouvi mais de uma vez. Essa pergunta me traz a lembrança do difícil ano de 2008, em que perdi doze quilos por conta de algum mal misterioso que me causava problemas digestivos gigantescos, além de provocar desagradáveis feridas na pele. Certo dia, fui a uma grande infectologista de Uberaba, onde eu morava na época, para ver a questão dessas feridas, pois estava cansado de tomar antibiótico atrás de antibiótico. Ela era uma médica muito experiente, inclusive cuidando de pacientes cujo sistema imunológico delicado demandava um cuidado gigantesco com contaminações por outros vírus e bactérias. “Alexandre, vamos usar esse medicamento aqui dentro da narina. É nas narinas que ficam grandes culturas de agentes microbiológicos nocivos, dado o ambiente quase perfeito para eles” – ela me explicou.

Ligou os pontos? No caso da Covid-19, temos um vírus que se aloja inicialmente nas vias aéreas superiores, incluindo as narinas. Antes mesmo de você apresentar os sintomas, seu nariz já está lotado de vírus. Se você espirra, voa contaminação para tudo quanto é lado. Se você coça o nariz, o que a sua mão tocar depois vai ficar com um montão de “corona”. Claro, tem a hipótese de você tirar meleca do focinho, hábito corriqueiro de parte considerável da população. Aí, além de espalhar vírus por tudo quanto é lugar, você ainda espalhará “casinhas” em forma de meleca para os bichinhos viveram mais tempo fora do corpo.

Se você pensa que usar máscaras corretamente e higienizar as mãos com frequência é apenas uma tentativa de dominar você, de implantar uma ditadura, então, como diz um jornalista conhecido, ou você é burro ou está mal-intencionado. Fazer como os japoneses e adotar esses cuidados pode fazer com que saiamos dessa situação terrível bem mais rápido, recuperando a economia e ajudando quem mais está sofrendo, que é, como sempre, a população mais nova. Seja mais japonês e menos brasileiro, ao menos por algum tempo. Se você não acredita na eficácia das máscaras, use-as corretamente, ainda assim. Primeiro, porque é uma regra e quem tem por hábito burlar a lei é bandido, algo que, imagino eu, você não seja. Segundo, porque é um sinal de respeito ao próximo, um sinal de humanidade.

Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 
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