05/06/2020 às 10h46min - Atualizada em 05/06/2020 às 10h46min

Timeo hominem unius libri

WILLIAM H. STUTZ
Falar da ocupação do cerrado em uma época onde a palavra ecologia soaria mais para algo como os “estudo dos ecos” é maniqueísta demais, perigosa simplificação de um tempo. E como toda simplificação, segundo o psicanalista Raymundo de Lima, “geralmente nasce da intolerância ou desconhecimento em relação à verdade do outro e da pressa de entender e reagir ao que lhe apresenta como complexo”, corre-se o risco de ser injusta.

Seria algo como condenar os descobridores por levar Pau-Brasil daqui na então colônia ou reprimir o naturalista Charles Darwin por ter arrancado de seu habitat natural milhares de plantas e animais. Ou ainda crucificar Marco Pólo por trazer a pólvora para a Europa, ou pior, execrar os chineses por terem inventado o papel, algo tão politicamente incorreto do ponto de vista das árvores.

Uma discussão destas carece de profunda avaliação histórica. Quando daquela ocupação do cerrado, nada ou muito pouco se sabia sobre aquecimento global, de emissão de gases poluentes, de efeito estufa ou camada de ozônio. Como também o termo “agrobusiness”, cunhado por Davis e Goldberg em Harvard, até onde sei não havia ainda chegado ao Brasil.

A visão ecológica da sustentabilidade veio bem mais tarde. Segundo a ONG Amazônia-Brasil “O movimento ecológico surgiu no Brasil nos anos 1970 denunciando os efeitos ambientais do modelo de desenvolvimento da época e os riscos de usinas nucleares, o que influenciou a criação de novas áreas protegidas. O principal marco é o Manifesto Ecológico de 1976, liderado pelo gaúcho José Lutzemberger”.

Voltando ao cerrado. Inicialmente foi o interesse por ouro e pedras preciosas que levou à sua exploração, isso ainda no século XVII. Contudo, historiadores afirmam: “Somente a partir da década de 1950, com o surgimento de Brasília e de uma política de expansão agrícola, por parte do Governo Federal, que iniciou-se uma acelerada e desordenada ocupação da região do cerrado, baseada em um modelo de exploração feita de forma fundamentalmente extrativista e, em muitos casos, predatória.”

Numa época em que o cerrado era desprezado tanto do ponto de vista econômico quanto poético (algumas raras e maravilhosas exceções), tudo que pudesse ser feito para atrair investimentos e principalmente fixar gente era bem-vindo. É duro? Com certeza o é.

Mas era a realidade de uma época. Muito diferente das ações descomedidas dos dias de hoje onde a falta de informação não pode ser desculpa para a destruição de nosso ecossistema, de nosso planeta. Todos, hoje, sabem muito bem o que estão fazendo.

Tivemos governadores visionários. Com as informações disponíveis à época fizeram o que deveriam fazer para o desenvolvimento da região, e o fizeram por amor ao Estado quero crer. Tenho plena convicção que hoje, municiado tecnicamente pensariam duas vezes, e com certeza encontrariam opções outras para o desenvolvimento regional, mas encontrariam! Bem diferente de alguns hoje que mesmo de posse de todas as informações e de todo conhecimento disponível, simplesmente fecham os olhos e atropelam a razão e a sensatez e destroem, sem critério ou visão de sustentabilidade mínima e sentimento por sua terra, sua gente.

Tomaz de Aquino, o santo, estava coberto de razão: “Timeo hominem unius libri”, ou “Temo o homem que só conhece um livro”. Se estiver enganado estendo minha mão à palmatória de bom grado.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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