12/05/2020 às 10h51min - Atualizada em 12/05/2020 às 10h51min

Os índios e os portugueses

Ana Maria Coelho Carvalho, anacoelhocarvalho@terra.com.br
No dia 21 de abril comemorou-se o descobrimento do Brasil. A figura mais tradicional dos livros de história, sobre esse descobrimento, mostra portugueses na praia, com as caravelas ao fundo, rodeados por índios curiosos. Mas lendo o livro “Guia politicamente incorreto da História do Brasil”, de Leandro Narloch, passei a entender aspectos bem interessantes desse encontro entre índios e portugueses.

Vejamos primeiramente o lado dos índios. Até então, eles eram os heróis do povoamento humano na América, isolados há milênios de outras civilizações. De repente, aparecem no horizonte enormes ilhas de madeira cheias de homens estranhos. Imaginem a surpresa dos índios. Entraram nos navios e foram recebidos com agrados: bolo, figo e mel, mas cuspiram tudo (segundo escreveu Caminha). Ficaram espantadíssimos ao ver uma galinha. Não sabiam nada de domesticação de animais, mas em pouco tempo já vendiam ovos aos portugueses. Bois, porcos, cavalos e cães também foram novidades revolucionárias. O cavalo logo passou a ser utilizado como instrumento de guerra. E o bom e velho cachorro causou divertimento e ampliou muito a capacidade de caça dos índios.

Também não sabiam nada de escrita, arte em metal, transporte sobre rodas, agricultura intensiva. Ficaram maravilhados com o anzol, pois não precisavam mais ter pontaria para acertar os peixes. A faca e o machado acabaram com o trabalho insano de lascar pedras. Rapidamente a metalurgia se espalhou pela selva e as lanças passaram a ter ponta metálica. Conheceram também frutos como a banana que, ao chegar aqui, já tinha passado por centenas de anos de migração e melhoramento genético. Os portugueses trouxeram também jaca, manga, laranja, limão, carambola, inhame, arroz, uva, café e até o coco (não existiam coqueiros no Brasil). Acostumados que estavam a só plantar mandioca e amendoim, a vida dos índios ficou mais fácil. Não é de se estranhar, então, que os índios tentassem agradar aos portugueses, com mandioca e mulheres, para se apoderarem dos objetos e da cultura deles.

Imaginemos, agora, o lado dos portugueses. O simples fato de descer do navio já era um problema. Podiam ser atacados por índios nervosos com flechas envenenadas. Encontravam-se enfraquecidos, cansados da longa viagem, em pequeno número e cercados por milhares de selvagens nus, que falavam uma língua estranha e devoravam seus inimigos (a palavra “mingau” vem da pasta feita com as vísceras cozidas do prisioneiro devorado pelos tupinambás). Assim, era melhor evitar conflitos, conquistar os selvagens e estabelecer alianças militares com os caciques (existiam cerca de 200 tribos indígenas, que guerreavam entre si). Era vantajoso ser amigo dos Tupis, que eram obcecados por uma guerra e dos tupinambás, que saboreavam um tupiniquim com o mesmo gosto que devoravam um jesuíta. Como os portugueses também gostavam de guerra, o potencial bélico dos índios multiplicou-se. Portanto é errado pensar que, na colonização, os portugueses fizeram tudo sozinhos. Eles dependiam dos índios amigos para arranjar comida, procurar ouro na mata, defender-se de tribos hostis e estabelecer acampamentos.

Tudo isso e muito mais (como a crítica ao mito do índio como um homem puro e em harmonia com a natureza, o que não é verdade), está no livro de Leandro Narloch. Concluindo, a interação entre índios e portugueses foi intensa, com muito mais emoção, ação, aventura e esperteza do que eu pensava.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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