17/04/2020 às 15h01min - Atualizada em 17/04/2020 às 15h01min

O direito de ficar aborrecido

CELSO MACHADO
Estava estagiando numa grande empresa e certa vez entrei sem avisar na sala de um dos seus dirigentes e o encontrei chorando. Por mais bobo que possa parecer e talvez tenha sido, mas foi verdadeiro, pensava que chefe não chorava. Custei a acreditar no que estava vendo: aquela figura rude, forte, sempre tão impositiva e dinâmica passando por uma situação que nunca imaginei que gente assim pudesse sentir.
Na inocência da minha imaturidade não tinha ainda a noção de que pessoas, independente do que sejam ou representam, são iguais a nós, frágeis e sensíveis. Nesse momento aprendi também que nada mais humano do que o ser humano sentir sua fragilidade.
Nem que  também existam seres tão fortes que não tenham suas fragilidades. Por mais que o individuo seja do tipo controlado, daqueles serenos e sossegados, capaz de conviver com situações complicadas, de passar com tranquilidade por muitas turbulências, volta e meia surgem acontecimentos que lhe provocam aborrecimento.
Não se trata de desgosto com alguém, com uma  negociação, resultado negativo,  expectativa frustrada, mas com questões que estão fora do seu controle. Ninguém por mais equilibrado que possa tentar ser está imune a isso. Se já não é nada agradável passar por isso, a expectativa dos outros para que você esteja sempre bem e tire isso de letra, por mais carinhoso que seja, na prática não ajuda.
Acredito que existem momentos de introspecção, em que necessitamos assumir nossas preocupações, repensar caminhos, rever projetos.
Não se trata de entrar em pânico, mas refletir sobre várias questões que fazem parte do cotidiano, que estamos adiando ou dando pouca atenção, que precisam ser resolvidas porque o prazo para solucioná-las não depende exclusivamente de nós.
Acaba sendo uma excelente oportunidade para imaginar consequências e desdobramentos do que está nos aborrecendo e, principalmente, as causas prováveis, verdadeiras ou não. Nesses momentos conta muito mais o que queremos e o que temos que fazer para conseguir isso, do que identificar origem de algo que surge fora do nosso controle.
Para quem como eu que gosta de viajar, em todos os sentidos e até mais em alguns, acaba se transformando numa chance valiosa de fazer, refazer e refinar projetos e programas.
O silêncio também é uma boa companhia para permitir que ouçamos melhor nós mesmos. Tem momentos que são momentos da gente com a gente. Não com frequência, porque do contrário fica chato, mas de vez em quando assumir um aborrecimento que surge em nossa vida sem aviso, faz parte. Como faz parte também que seja o mais rápido possível. Principalmente não deixe sequelas e inquietações que nos tirem a alegria de viver.


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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