17/03/2020 às 08h08min - Atualizada em 17/03/2020 às 08h08min

Grilo recheado

ANA MARIA COELHO CARVALHO

 
Quando o assunto é inseto, logo se pensa em insetos nocivos, como mosca do berne, mosquito da dengue, pernilongo, barata, barbeiro da doença de Chagas. Mas inseto é muito mais que isso. Existe cerca de um milhão de espécies descritas e o número de espécies existentes no planeta, segundo diferentes autores, pode variar de cinco a dez milhões. O bom é que a maioria das espécies conhecida é benéfica. Só para dar alguns exemplos: o incrível avanço da genética nos últimos anos se deve em parte aos estudos com a mosquinha da banana, a Drosophila melanogaster, que possui cromossomos gigantes nas glândulas salivares; a maioria das plantas que floresce no mundo depende de insetos polinizadores, como abelhas, vespas, besouros e moscas, para a produção do fruto; os insetos saprófagos decompõem cadáveres de animais e plantas; os insetos do solo promovem aeração e aumento da matéria orgânica; produtos derivados dos insetos, como mel e seda, movimentam indústrias milionárias.

Além disso, acredita-se que futuramente os insetos terão um enorme destaque na alimentação humana. Atualmente, cerca de 30% da superfície terrestre é destinada à agricultura e à pecuária. Os insetos podem ser criados sem necessidade de áreas específicas para isso e são uma excelente fonte alternativa de proteína. Embora pequenos, são altamente proteicos e podem ser criados em massa, devido à sua alta capacidade reprodutiva e ao ciclo de vida curto. Aliás, a entomofagia, ou seja, o hábito de comer insetos, é bem antigo e surgiu com os primeiros hominídeos. O povo asteca já se alimentava com dezenas de espécies de insetos: assados, fritos, ao molho, fervidos, secos. Hoje em dia são consumidos por diferentes povos em diferentes regiões do mundo. Por exemplo, pupas do bicho da seda são comidas na China e no Japão como biscoito e vespas adultas, na forma de churrasquinho. Ovos de percevejo são o caviar dos mexicanos e os percevejos adultos servem como condimento do alimento, torrados e moídos com pimenta. Lagartas de mariposas são comidas normalmente no Zaire e dez delas são suficientes para suprir as necessidades diárias de um adulto. Gafanhotos africanos cozidos em água salgada são vendidos nos mercados de Marrocos. Tanajuras torradas são usadas como tira gosto em Pernambuco. Larvas assadas de vespas são comidas com farinha pelos índios brasileiros. Insetos enlatados são vendidos nos mercados americanos, mas o preço é alto. As lagartas fritas são comidas como cereal e os gafanhotos fritos são usados em pizza.

No entanto, muitas pessoas possuem aversão a comer insetos (inclusive eu), o que é muito mais cultural do que científico ou racional. Afinal de contas, outros invertebrados, como ostras e scargots, escorregadios e gosmentos, fazem parte da dieta humana. E a "carne" dos insetos tem os mesmos componentes das outras carnes, mas com muito mais proteínas e vitaminas, representando uma poderosa fonte alimentar para o mundo que passa fome.

Como tudo é uma questão de hábito, pesquisas mostram que as pessoas podem comer insetos com prazer, desde que apresentados de uma forma disfarçada. Estudantes de entomologia comeram prontamente insetos cobertos com chocolate e também brigadeiros com farelo de grilo. Por outro lado, comemos insetos- ou seus fragmentos- diariamente, e nem sabemos. Alface e couve possuem pulgões diminutos; o arroz é altamente infestado por insetos; a farinha de pão possui pequeninos e inúmeros fragmentos de insetos; massa de tomate, catchup, goiabada, sucos de tomate, maçã, manga e goiaba e outros produtos possuem insetos triturados dentro de um índice aceitável pela saúde pública (isso aumenta o valor nutritivo do produto).

Assim, como todos nós já comemos insetos mesmo, e deveremos comer mais ainda em um futuro próximo, segue uma receita picante de grilo recheado. Ingredientes: uns dez grilos e amendoins. Retire a cabeça dos grilos e o final do abdômen. Remova o intestino. Insira amendoins torrados no abdômen. Frite os grilos limpos e recheados na manteiga ou no óleo. Polvilhe com sal e sirva quente. Importante: retire as asas e as pernas antes de comer! Bom apetite...

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


















 

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