03/03/2020 às 08h32min - Atualizada em 03/03/2020 às 08h32min

Dona Inez fala de política

ANTONIO PEREIRA

“Aqui, por exemplo, tinha a festa de Nossa Senhora da Abadia, isso eu me lembro porque era criança, era festa dos “cocão”. A festa de cada santo era frequentada por partido diferente. O partido é que enfeitava a igreja. Eram dois: São Sebastião, dos “coió” e Nossa Senhora da Abadia. Nossa Senhora do Rosário era dos pretos. A frente da igreja de N. S. do Rosário era voltada para a rua Barão de Camargos porque a cidade era pra baixo e não pra cima como é hoje. Viraram a frente pra cima porque a cidade cresceu e subiu. Era uma igrejinha pequena, menor do que a que está aí. Tinha muito morcego na torre. Foi uma pena ter demolido. Ali na praça da prefeitura ficava um cemitério longínquo da cidade.

O Dr. Duarte Pimentel de Ulhoa era “cocão”, por isso que eles nunca perdiam as eleições. O juiz naquele tempo podia fazer tudo. Os mortos votavam. Uma vez, os “coió” perderam as eleições por seis votos. Eu sei que muita gente que já estava lá no cemitério votava e tinha muita briga. Naquele tempo eles faziam os quartéis. Dos “coió” e dos “cocão”. Em geral eles faziam numa casa bem grande, com terreno bem grande, punham aqueles toldos. Então, ali tinha cama pro pessoal que vinha da roça votar. Tinha aquelas latas de doce muito grandes. Tinha lugar pra dançar. Só que as moças da cidade dançavam num pedaço e as moças que vinham da roça noutro pedaço; não deixavam misturar porque diziam que os rapazes da cidade aproveitavam das moças da roça. Tinha isso. Ali no Samora, aqui na Floriano Peixoto, pra baixo da farmácia (Eleusa). Era a casa do seu Samora. Ali tinha um fundo muito grande. Ali foi quartel dos “coió”. Dos “cocão” era lá muito pra baixo. Do “cocão” eu não me lembro porque eu não fui levada lá.

A chácara do coronel Severiano, na época de eleição, era cheia de jagunços. Ele tinha jagunçada na fazenda. Teve até uma guerrazinha. Pediram força pro Estado e veio. Minha mãe contava que ela ficou na casa com (...?) que era uma preta velha empregada da vovó, então, ela ficava em casa, mas vieram os jagunços correndo, os soldados atrás, um atirou nele, o capanga morreu na cerca de arame. Que era tudo cerca de arame. Uberabinha era quente na política. “Coió” nunca ganhou. Conheci o coronel Carneiro, a loja dele. Ele era “coió”. No fim da vida ele misturou com os “cocão”, mas quando ele era “coió”, ele e a mulher dele, a Donana, isso minha mãe que me contou, minha mãe ainda era solteira, ela disse que a Donana era comadre do cel. Severiano, então ela pegava um facão e falava pro Carneiro: “Você não tem coragem, mas eu tenho. Ainda vou furar a barriga daquele meu compadre.” As mulheres foram brabas, mais do que os homens. O coronel Carneiro era um homem de muita visão. Queria que isso aqui chamasse Maravilha. Uberlândia foi uma terra nascida do amor. Porque aqueles primeiros que viveram aqui eram pessoas que verdadeiramente amavam a terra. Primeiro porque a terra foi doada pra Nossa Senhora do Carmo. Essa parte toda aqui do córrego São Pedro ao Cajubá, essas terras todas pertenciam à igreja. Aqui é uma terra privilegiada. Os primeiros habitantes foram amorosos da terra. Hoje eu acho que a cidade é muito amada, porque o pessoal muda pra cá e não sai mais daqui. O coronel era uma pessoa boa, correta, mas muito exigente com os filhos, trabalhador. Naquela época ele levou o filho Hermes ao Rio de Janeiro pro presidente da república batizar. Isso aqui era um mato, pra ir lá era uma dificuldade. Meu pai era sobrinho do Afonso Pena. A família do meu pai é descendente de portugueses. Os nossos antepassados eram todos barões. Eram títulos que eles traziam de Portugal.”
 
(Dona Inez era filha do Dr. Abelardo Penna)

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

















 

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