25/02/2020 às 08h23min - Atualizada em 25/02/2020 às 08h23min

Renato e as escolas noturnas

ANTONIO PEREIRA

Eu era assessor do Superintendente Regional da Fazenda. Um fiscal havia notificado a condução irregular de mercadorias de uma alta figura política, em cargo de grande relevância nacional, ao tempo da última ditadura. Encontrei-me, no aeroporto, com um assessor da dita autoridade que, irritado, desancou o Superintendente, fazendo até ameaça de dar-lhe um tiro. Onde já se viu multar uma autoridade daquele porte! Que desrespeito era esse? A intenção do assessor não era dar tiro, era mandar recado por meu intermédio. Não acredito em recados. Quem quer fazer, faz, não manda recados. Não rolei a bola pra frente. Não satisfeito, o cidadão procurou pessoalmente o Superintendente. Protegido pela situação excepcional, assessor de uma autoridade discricionária, disse o que queria, com os agravos que quis, ao meu chefe. Ao final do despropósito, o Superintendente respondeu-lhe apenas que a notificação venceria daí a tantos dias. Se não fosse paga seria inscrita em Dívida Ativa. A inscrição é publicada no Diário Oficial. De conhecimento público, portanto. Seria um prato cheio para os adversários do citado “homem bom”. E encerrou a entrevista. No dia seguinte, sem tiro, sem nada, a notificação foi paga.

Esse fato, de grande ensinamento moral, me lembrou outro. Renato de Freitas, um dos maiores prefeitos que a cidade já teve, fez uma revolução no ensino, coisa da qual ninguém fala, aliás, pouco se fala da grande obra desse homem. Coisas da política. Querem que seja esquecido.  Uma de suas atuações no campo do ensino foi aproveitar o tempo ocioso, noturno, dos antigos Grupos Escolares que, naquele tempo, eram da responsabilidade dos Estados. Nisso, ele recebeu a ajuda do prof. Fenelon dos Anjos e do vereador Antônio Couto de Andrade. Renato criou ginásios noturnos nesses grupos, para jovens de origem humilde. O ensino era no padrão Colégio Estadual, o melhor da cidade. A prefeitura pagava todas as despesas. O Estado apenas cedia os imóveis. Apesar da qualidade do ensino oferecido, os cursos não eram reconhecidos. Pouco tempo antes de passar o comando da cidade ao seu sucessor, Renato foi ao Secretário da Educação do Estado. Foi pedir o reconhecimento daqueles cursos. Na época, o governo estava nas mãos de adversários do prefeito. O Secretário disse-lhe que era impossível o que ele queria. Renato já esperava o bloqueio.

Tranquilamente o Prefeito comentou com o Secretário:

- Devo entregar a Prefeitura daqui a pouco tempo. Esses meninos estão terminando o ginasial. Se esses cursos não forem regularizados e reconhecidos, os professores vão ter que ser demitidos e alguém precisa explicar para esses meninos que o sacrifício noturno que eles fizeram durante quatro anos não valeu de nada. Quem vai ter que fazer isso vai ser o governador porque eu já estarei fora. Ou, então, assumirá o desgaste.

Irritado o Secretário respondeu-lhe:
- O senhor é muito atrevido!

Mas regularizou tudo.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
















 

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