04/02/2020 às 09h40min - Atualizada em 04/02/2020 às 09h40min

AS PRIMEIRAS FARMÁCIAS E O PRIMEIRO MÉDICO

ANTÔNIO PEREIRA
“O problema de saúde na cidade era grave. Sempre que alguém adoecia e os práticos não conseguiam resultados, ou o doente tinha que ser removido para Uberaba, ou era chamado um médico de lá”

Na metade do século XIX, Uberabinha não era nada: um aglomerado de casebres cobertos por palmas de buritis nos arredores da capela curada de Nossa Senhora do Carmo e São Sebastião, Mártir no Largo da Matriz. Só em 1852 foi criado o Distrito de Paz e a Igreja criou a Paróquia. Havia, então, 44 casas construídas: nove em torno da Igreja, duas no Largo do Rosário (Praça Dr. Duarte), doze na rua São Pedro (Vigário Dantas), cinco na rua do Cotta (Dom Barreto), quatro na rua Direita (Marechal Deodoro), quatro na rua Boa Vista (Felisberto Carrejo), quatro na rua do Pasto (XV de Novembro), três na rua do Rosário (General Osório) e uma na rua do Comércio (que não identifiquei).

A primeira botica foi instalada em 1850 por Miguel Jacinto de Melo, no Largo da Matriz. Era apenas um prático, mas o pequeno arraial tinha que se conformar com isso. Antes dele, havia os raizeiros e os benzedores. Miguel foi também Escrivão do Distrito. Exerceu sua função de farmacêutico a que acresceu o mister de médico, até 1892, quando faleceu. Sete anos depois da instalação da primeira farmácia, em l857, chega o “Pintão” (Antônio Maximiano Ferreira Pinto), boticário prático também, mas com a vantagem do licenciamento concedido pelo Imperador d. Pedro II. Era músico e montou nossa primeira Banda (dos Pintos). Foi político, presidente de uma facção opositora à comandada pelo outro farmacêutico, o Miguel.

Em 1879 faleceu e seu filho homônimo continuou à frente do estabelecimento até 1899 quando também faleceu. Sua farmácia chamava-se Santo Antônio. O quarto farmacêutico foi Américo Saint’Clair de Castro, que se instalou em 1887 com a Farmácia Sul Americana que ficava na esquina das ruas Augusto César e Barão de Camargos. Américo foi também Delegado Municipal de Polícia e o primeiro Venerável Mestre da Loja Maçônica Luz e Caridade, fundada em 1896. O quinto foi Francisco de Melo com a Farmácia Aliança e o sexto, José Teixeira de Sant’Anna, com a Farmácia Popular. Teixeira foi Vereador e Agente Executivo (função correspondente à do Prefeito Municipal).

O sétimo foi Antônio Thomaz Ferreira de Rezende, cujo estabelecimento se chamava Farmácia Rezende. Esses farmacêuticos eram provisionados, não tinham estudos específicos, mas, dada a falta de médicos, até essa atividade praticavam. Por fim, em 1906, o dr. Antônio Vieira Gonçalves, formado em escola de nível superior, adquiriu a farmácia Sul Americana do Américo Saint’Clair de Castro, e Uberabinha, enfim, teve o seu primeiro farmacêutico formado.

O primeiro médico a vir pra cá, foi o dr. Carlos Gabaglia. Não se radicou aqui. Era médico itinerante. Sua família permanecia no Rio de Janeiro enquanto ele rodava pelo interior. O problema de saúde na cidade era grave. Sempre que alguém adoecia e os práticos não conseguiam resultados, ou o doente tinha que ser removido para Uberaba, ou era chamado um médico de lá. De qualquer forma, doente e médico transportavam-se em lombo de burro ou carro de bois.

Era viagem longa e muitas vezes não se dava o encontro entre o médico e o paciente. Muitas vezes, o doente já estava enterrado quando o “doutor” chegava. Quando não, o médico se acomodava em sua casa e ali ficava dias por sua conta. Era uma situação insustentável. A população resolveu, então, contratar um médico e procurou o dr. Gabaglia para o contrato de um ano pela importância de seis contos e seiscentos mil réis. No começo de 1885, a lista de adesão somava apenas cinco contos e oitocentos mil réis. Foi quando o Vereador e Agente Executivo Augusto César Ferreira e Souza propôs à Câmara que assumisse os oitocentos mil réis restantes mediante a emissão de uma Nota Promissória.

O dr. Carlos Gabaglia aceitou e veio para Uberabinha ficando um ano. Em 1886, vencendo o contrato, foi-se, ninguém sabe para onde, mas providencialmente, pouco depois chegava o dr. Raphael Rinaldi, cidadão caridoso que aqui permaneceu, quase sem ganhar nada, até o seu falecimento, em 1911.

(fontes: dr. Longino Teixeira, Tito Teixeira e Atas da Câmara)           

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.






 
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