04/02/2020 às 08h14min - Atualizada em 04/02/2020 às 08h14min

Subsolo visceral

ENZO BANZO
A moda quando é boa, é bom que pegue. Essa moda de lançar uma antologia no primeiro dia do ano, com escritos de gente de cá que escreve, pegou e merece mais que um brinde de réveillon. Ano passado, escrevi sobre a Antologia Subsolo 2019, lançada no mesmo dia da posse da p* do presidente, para já citar um poema (Jack Albernaz é o autor) da nova antologia, a de 2020, que como no ano passado janeirou ao primeiro dia. A nova leva, conduzida pelo braço brado de Robisson Sete, chegou mais bonita e arrumada, caprichosa no tratamento gráfico de Thiago Carvalho. E trouxe mais gente, antes 50, agora 60 que assinam os escritos. "Você pode escrever alguma coisa / sobre qualquer coisa", diz o Marcus Vinícius. Muito foi escrito e dito. As palavras vibram silenciosas no livro virtual. Na capa, um megafone na mão.

O acaso costuma ser bom diretor, e se as obras estão organizadas pelo nome dos autores em ordem alfabética, o primeiro verso da antologia parece ter sido escolhido a dedo: "rasguei nos dentes a carne", assim se inicia "O selvagem", de Acid Beatriz. Logo na abertura, o tom do conjunto: visceral. Poesia das vísceras que se libertam, se revelam, trocam o silêncio pelo megafone da potência poética. No texto seguinte, de Alan Max Miliano, a confirmação: "era poesia pura, visceral! / Vendia livros, vomitava versos / Depois tomava puro malte nas esquinas".

As vísceras que vibram no corpo − tremores do subsolo −  são a força e a energia constantes daquele oculto que está sempre aí, silêncio que não se cala. Daí a poesia emerge, para marcar o lugar indestrutível de seu próprio não-lugar: "aquele abismo / ou mero vão / entre o trem, a plataforma e o primeiro degrau do inferno", nos versos de Celso Suarana; ou, na escrita de Aline Romani: "entre o trabalho e palco / (a solidão que carrego) / entre a cortina e o teto".

A forma desta força não é, via de regra, aquela que observamos no conjunto de versos e estrofes − poema. Há os textos em prosa, HQs, cartas, experimentos. Getúlio 4D, em seu "Grande Sertão: sem veredas", chega a encadear relatos de viagem de pesquisadores do século XIX, em conjunto ao seu próprio, descrevendo em diferentes tempos o mesmo espaço, a região do Tijuco: "De que vale / 200 anos / em um / poema / sem / Buritis / ?" Já Carolina Monteiro, em sua "Carta a um estranho", nunca enviada, lista em tópicos o que não parece coisa a se listar: "1. todas as coisas miniaturas me lembram você 2. somos tão diferentes e ainda assim sinto saudades como se fôssemos parecidos 3. acho seu rosto bonito 3.1 gosto do jeito como os olhos não combinam com o nariz". 

Entre muitos poemas de tantas palavras, alguns chamam a atenção pelo poder de síntese: "pai // sempre morre / sem avisar", crava e finca João Biella. No jogo das recorrências sonoras, revela-se o agudo pensamento, como em "O gene egoísta", de Jorge Abrantes: "O gene que gera o verme / É o mesmo que gera gente (...) O gene que gera o jegue / É o mesmo que engendra o gênio". E se o jogo é o de construir poesia, Cleusa Bernardes levanta uma "Parede", física e material, usando como tijolos e telhados os próprios elementos gráficos: "/\casa/\morada/\residência/\lar/\".

O ano passou, fez-se nova antologia. "Fico aqui a ralar beterrabas e queijos enquanto lamento-me", conta Jéssica Ribeiro. "Tem dia que imita os outros", responde Fernanda Vilela Morais. "O mundo não acabou / no último dia em que fomos felizes", conclui Samuel Giacomelli. A poesia segue tremendo no profundo da Terra, corpo de sua gira. E revela-se nova em "Velhas canções", como a de Zé Roberto: "Tem dias que a gente sente que apesar de ser só um pingo, também nasceu com a chuva, e está sempre indo e vindo do chão pro céu, e da água pro ar".



*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.









 
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