29/01/2020 às 10h23min - Atualizada em 29/01/2020 às 10h23min

Não seja tão “grande”

FERNANDO CUNHA

Dias atrás, um empresário interessado em ingressar na vida pública me relatou que tem recebido propostas indecorosas de alguns políticos profissionais mais “experientes”. Isso tem alimentado nele um certo desânimo para continuar na jornada em busca da máxima posição do Executivo de sua cidade. Mas, ao mesmo tempo, tem reforçado nele o propósito de entrar de cabeça no pleito, justamente para combater o sistema por eles implantado. Ofereci a ele a proposta de basear a sua comunicação justamente no princípio que ele defende, incluindo em sua fala a defesa de seus valores éticos e morais e a impossibilidade de se render a recomendações fraudulentas de políticos corruptos. Disse também para não limitar o seu discurso apenas no argumento de “combate à corrupção”, pura e simplesmente. Então, mostrei a ele como construir um manifesto em defesa de seus ideais. Mas antes, contei-lhe uma breve história, a qual gostaria de compartilhar com você.

Por volta de 500 anos antes de Cristo, Ciro, o Grande, foi o líder do maior reinado conhecido da história: o Império Persa. O poderio dele abrangeu aproximadamente oito milhões de quilômetros quadrados, localizados em três continentes: Ásia, África e Europa. Dois séculos mais tarde, Alexandre, também conhecido como “o Grande”, ao invadir a Persa, por volta de 334 a.C., se deparou com um reino pouco unido, liderado por um imperador enfraquecido. Alexandre e seu pequeno e disciplinado exército conquistaram territórios, consolidando o Império Grego que, apesar de sua pouca duração, obteve efeitos duradouros na cultura ocidental. Em 27 a.C., uma nova monarquia surgia: a romana. Liderado inicialmente por Otávio Augusto, o Império Romano foi o que durou mais tempo (cerca de 500 anos). Um dos fatores que contribuíram com a queda destes três reinos, e vários outros, é muito conhecido e, infelizmente, praticado por muitos de nós: a corrupção.

E a história sempre se repete. Vira e mexe, as “grandes” oligarquias e os “grandes” líderes do planeta assistem ao declínio do seu próprio império, erguido às custas de uma espécie de câncer, instalado por eles mesmos, e que, gradativamente, vai matando a humanidade. Ainda temos muitas células desordenadas e altamente nocivas à saúde social e econômica de nosso país. Tempos atrás fomos surpreendidos com o caso Odebrecht, o maior escândalo de corrupção global da história. Numa escala inferior, e não menos nociva, numa manhã de dezembro último, o município de Uberlândia (MG) acordou com a notícia da prisão de 20 vereadores e outros supostos envolvidos, após o Ministério Público descobrir que os parlamentares usavam a verba de gabinete com gráficas que emitiam notas ideologicamente falsas. Dias antes, outros dois vereadores foram presos acusados de um outro crime envolvendo desvios de dinheiro público.

A corrupção está enraizada no mundo desde os nossos primórdios e o ciclo é sempre o mesmo. Todo império se inicia por uma suposta causa, propósito ou ideia de mudança. O movimento vai ganhando corpo até que chega ao poder. Após conquistar a posição desejada, o império se consolida e atinge o seu ápice. É nesse estágio que o poder se estabelece e é institucionalizado. Nesse ponto a cobiça e a ganância invadem os corações e mentes dos líderes e de seus fiéis seguidores e a corrupção se instala sistematicamente. Inevitavelmente, a última etapa deste ciclo é a queda. Em muitos casos, o espírito corruptivo está incutido desde a primeira fase do ciclo, quando a intenção, desde o início, é apenas resolver os próprios problemas, e não os dos outros.

Propus então ao empresário aplicar uma estrutura textual que pode servir de base para a composição de seu speech: “hoje, vivemos em um mundo onde...” (inserir o problema que o incomoda). “Mas, acredito que...” (inserir a solução desse problema). “Para que isso aconteça, eu...” (inserir os esforços que serão empenhados no combate ao problema). Além de ajudarem na consolidação do seu posicionamento político, os seus argumentos colocados dessa forma terão mais solidez e podem se conectar melhor com o seu real propósito e com as expectativas de seus possíveis eleitores. Isso serve também no meio profissional e empresarial. Da mesma forma que os eleitores possuem uma certa impressão de seus candidatos, os clientes também formam uma opinião sobre nós, nossa empresa e sobre o “grande império” que almejamos construir. Mas, uma coisa é certa: onde a corrupção se instala, o sucesso afugenta-se.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.









 

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