04/04/2017 às 10h43min - Atualizada em 04/04/2017 às 10h43min

São sempre os mesmos

Certa vez, li uma frase que me pareceu totalmente certa: "Se você errar uma vez, é possível que você nunca mais cometa aquele mesmo erro. Mas, se você errar pela segunda vez, provavelmente errará pela terceira, quarta...". A frase me fez observar o mundo ao meu redor para fazer um teste de validação de seu conteúdo e, até agora, não tenho razões para duvidar de sua veracidade.

Em uma ocasião, por conta de um estudo que fazia, tive acesso aos arquivos de uma corregedoria e dei uma olhada em todos os procedimentos disciplinares. Das centenas de funcionários fiscalizados, a grande maioria dos procedimentos era relativa a alguns poucos. Para fazer a frase ganhar ainda mais força, não me lembro de ninguém que tivesse aberto contra si tão somente duas sindicâncias: ou a pessoa tinha uma só ou tinha um monte.

Percebi isso também em relação às pessoas que me cercam. Há algum tempo, um conhecido teve um problema no trabalho. Conversei com o chefe dele e disse: "Olha, aguarde para ver se não é um caso esporádico. Agora, se ele voltar a dar o mesmo tipo de problema, pode ter certeza que não parará por aí". O que aconteceu? Dois meses depois, atendido em sua solicitação para mudar de local de trabalho, pois no primeiro tal pessoa tinha levantado um monte de problemas, lá estava novamente o mesmo ser humano fazendo a mesma reclamação dos pares ao redor. "O problema é com ele, não é com os outros" - eu alertei. Alterado o local de trabalho mais uma vez, demorou pouco tempo para que os problemas voltassem a surgir, agora já no terceiro posto.

Assim tenho visto em inúmeros casos que conheço. E a frase vale para todos os pontos da vida. Já conheci gente que traiu uma vez e nunca mais voltou a pular a cerca. Mas, não me lembro de alguém que tenha traído apenas duas vezes. Se a pessoa foi infiel pela segunda vez, esteja certo de que será (ou já terá sido) em outras oportunidades. Dizem que é como o homicida e seu primeiro assassinato: o sangue e a agonia da vítima vão perturbar a sua cabeça como um filme de terror. Mas, se ele superar a perturbação da primeira morte e fizer uma nova vítima, esta não mais deixará qualquer marca de pesar, abrindo caminho para uma sequência de assassinatos.

Essa realidade é bem lógica. Todo ato que você pratica e que foge da normalidade, sendo encarado pela sociedade como um erro, geralmente faz com que você se sinta mal em um primeiro momento. Tem gente que nunca consegue se livrar do arrependimento e da sensação de culpa, chegando até mesmo a buscar formas de autopunição ou de mudança radical de vida, para provar para si que é capaz de nunca mais cometer idêntica falha. Tenho certeza de que você já passou por isso. O problema surge justamente quando você supera essa culpa a ponto de não enxergar mais erro no ato cometido, praticando-o novamente. Aí, nada mais vai te segurar.

Depois de muito observar para testar a validade da tal frase, eu não apenas concluí que ela é verdadeira, mas também passei a tomar mais cuidado com aqueles que cometem o mesmo erro pela segunda vez. Sim, eu sei, é um tipo de preconceito. Mas, não há ninguém nesse mundo que não carregue ao menos alguns preconceitos. Não sou Deus, sou falível e tão humano quanto qualquer humano na face deste planeta. Concedi a mim mesmo o direito de não acreditar mais em quem repete o mesmo erro. Claro, não confundo as coisas. Não é porque a pessoa é infiel que eu vou achar que ela é ladra ou que tenta passar a perna nos colegas para conseguir uma promoção no trabalho. Se comprovei a validade da frase da qual estamos tratando aqui, também verifiquei que ninguém é absolutamente mau ou absolutamente bom. Há pessoas horríveis capazes de gestos maravilhosos e vice-versa. Por isso, que fique claro que o meu preconceito é tão somente em relação a uma determinada questão objeto do mesmo erro pela mesma pessoa por mais de uma vez. E, claro, na vida pessoal. No trabalho, procuro me abstrair dessa convicção para não contaminar meus julgamentos.

Bom, para finalizar, eu digo que acredito que uma pessoa possa se corrigir e nunca mais voltar a cometer o mesmo erro, ainda que o tenha feito por várias vezes. Porém, depois de muita observação, passei a acreditar nessa mudança apenas nos casos em que a pessoa sofre um trauma muito grande ou passa a carregar alguma crença nova, especialmente no campo religioso. Fora disso, não vejo muita esperança.

Alexandre Henry Alves - Juiz Federal e Escritor

www.dedodeprosa.com

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