14/01/2020 às 10h46min - Atualizada em 14/01/2020 às 10h46min

Raulino Cotta Pacheco - 2ª parte

“Dizem que o preço do gado no estado de Goiás só se estabelecia com a chegada do Chico Cotta. Raulino enfrentou a dura epopeia das viagens pelos sertões: falta de estradas, distância, febres, travessias de grandes rios, desconfiança de estranhos etc. Eram quarenta dias de marcha tangendo gado para as feiras de Barretos e Passos”

A papelaria do Raulino Cotta Pacheco, do Pedro Salazar Pessoa Filho e do Sidney Machado da Silveira era ponto de encontro dos intelectuais. Como estourasse a primeira Grande Guerra e se vivesse no país num clima de intenso ufanismo e patriotismo, Raulino, Salazar e o professor Honório Guimarães resolveram fundar um Tiro de Guerra. Reconhecido pelo Ministério da Guerra, o Tiro recebeu o número 263 e foi enviado para cá o tenente Francisco de Arruda Câmara para comandá-lo.

Honório era o Presidente, Salazar o Tesoureiro e Secretário o Raulino que, depois, foi comandante de Pelotão. O Tiro recrutou muitos jovens que nele aprendiam a arte militar. O Ministério enviou 50 fuzis mauser, modelo 1908, sem munição, só para treinamento e conhecimento da montagem e desmontagem. Diretoria e atiradores desfilavam garbosos pela pequena cidade nas ocasiões festivas.

Os três diretores do Tiro editaram um pequeno jornal chamado carinhosamente de “Diarinho”, cujo verdadeiro nome era “Diário de Uberabinha”. Foi o primeiro jornal diário da cidade. Mantinham um serviço telegráfico ligado a uma agência paulista de notícias que lhes passava informes sobre as grandes batalhas nas diversas frentes de combate da Guerra Mundial. Era colaborador o jornalista Agenor Paes, depois diretor de “A Tribuna”.

Num intervalo entre suas diversas atividades, Raulino foi boiadeiro juntamente com seu tio Chico Cotta. Chico foi um dos pioneiros nessa atividade que já prenunciava as ações a longa distância que caracterizariam o comércio da cidade com os caminhoneiros num passado próximo e com os atacadistas no presente. Dizem que o preço do gado no estado de Goiás só se estabelecia com a chegada do Chico Cotta. Raulino enfrentou a dura epopeia das viagens pelos sertões: falta de estradas, distância, febres, travessias de grandes rios, desconfiança de estranhos etc. Eram quarenta dias de marcha tangendo gado para as feiras de Barretos e Passos.

Foi comerciante atacadista estabelecido na velha praça Clarimundo Carneiro que era a “boca do cerrado”. Depois de sua casa, mais nada até a estação da Mogiana. Foi um dos fundadores da Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Uberlândia, em 1933, e fez parte da terceira Diretoria, de 1936 a 37, sob a presidência de Aristides Bernardes de Rezende.

No dia 29 de agosto de 1938, como parte dos festejos comemorativos do Cinquentenário de Uberlândia, foi inaugurada a sede da Associação Comercial, à avenida João Pinheiro, onde está o prédio Armante Carneiro, com uma exposição no salão térreo. O expositor que abria a relação do programa era Raulino Cotta Pacheco, agora industrial, com farinha de milho, fubá e canjica.Sua última atividade empresarial foi a casa “Prolar”, que ficava na avenida Afonso Pena, onde é o Banco do Brasil.Por fim, depois de intensas e variadas atividades, Raulino foi nomeado Avaliador Judicial, função em que se aquietou até a aposentadoria.

No dia 3 de junho de 1966, em sua residência, os diretores das cincos escolas superiores da cidade - Direito, Economia, Engenharia, Filosofia e Música - fizeram a entrega de seus patrimônios a Rondon Pacheco como passo importante para a criação da Universidade.Raulino casou-se com d. Nicolina em 1918 e tiveram os seguintes filhos: Haydê, Ubaldo (Badu), Rondon, João, Mauro, Maria de Lourdes, Mário, Márcio, Terezinha, Eleuza, Célio e Fausto. É possível que tenha omitido alguma atividade comunitária de Raulino Cotta Pacheco, mas acredito que, apenas pelo relatado acima já se justifica a proposta de seu velho amigo e sócio Pedro Salazar Pessoa Filho. A avenida para o Raulino foi uma lembrança justa.



*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.












 
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