12/01/2020 às 08h30min - Atualizada em 12/01/2020 às 08h30min

Viagem ontem e hoje

ALEXANDRE HENRY

No final de 1996, eu morava em São Paulo e fui ao aeroporto com meu amigo Sérgio, companheiro de apartamento, buscar um primo dele que estava vindo de Londrina e iria passar algumas semanas fazendo um mochilão na Europa. Ele ficou conosco só uma noite antes de embarcar novamente, agora em um voo internacional, deixando para trás algo que moldaria um pouco do que sou hoje: o livro “Uma aventura legal”, de Sérgio Motta, no qual o autor narrava os três meses passados na Europa gastando poucos dólares por dia. Devorei aquelas páginas na mesma velocidade em que nascia, dentro de mim, o prazer pelas viagens. Muito antes da última linha, eu já tinha decidido que juntaria dinheiro para fazer um trajeto parecido.

Viajar se tornou algo muito mais simples desde então. Lembro-me de que, na época, eu tive que comprar minha passagem aérea em uma agência de turismo. Peguei um voo mais barato pela Iberia, direto de São Paulo para Madri, tendo pago, na época, algo como R$ 6.500,00. Durante toda a viagem, fiquei em albergues da juventude, os quais tiveram que ser previamente reservados do Brasil, também por uma agência. O roteiro foi montado com base no livro e, além disso, em guias impressos que eu conseguia ao chegar em cada uma das cidades. Tudo “analógico”, como se diz hoje em dia. Parti dia 11 de junho de 1997 sozinho, com uma mochila nas costas, e somente tive contato com alguém do Brasil dez dias depois, em uma difícil ligação internacional. Até já havia internet na época, mas era algo bastante restrito, bastante mesmo.

Neste começo de 2020, estou novamente com o pé na estrada, mas em outro mundo. Reservei e comprei tudo sem ir a qualquer loja física. A passagem aérea foi adquirida diretamente no site da Ethiopian Airlines, uma companhia africana que opera uma ponta de voo na América do Sul. Hospedagem? Como estamos em cinco pessoas, um hotel sairia muito caro e desconfortável para as duas semanas de viagem. Aluguei então um apartamento pelo AirBnb e me mantive em contato com o seu administrador pelo WhatsApp até minha chegada. Pesquisei inúmeros passeios e restaurantes diretamente no celular, o qual, aliás, tem sido minha ferramenta de contato com o Brasil a qualquer hora. Aliás, falando em sites e celulares, descobri um serviço relativamente novo no AirBnb que oferece experiências locais para turistas, colocando em contato artistas e guias, antes desconhecidos, com qualquer usuário que tenha cadastro no site. Por meio desse serviço, fomos parar em um apartamento de um casal de músicos argentinos, o qual nos contou a história do tango em um bate-papo bem intimista, regado a vinho e entrecortado por algumas performances fantásticas no violão.

Viajar ficou não apenas mais fácil, mas também mais barato. Hoje, conforme a época do ano, você consegue uma passagem para a Europa por cerca de R$ 2.000,00. Há hospedagem de tudo quanto é jeito e preço, além de sistemas de transporte bem econômicos. Pode-se ir da Espanha para a França, como fiz em 1997, por poucos euros em companhias aéreas de baixo custo.

Enfim, praticamente tudo melhorou desde aquele meu mochilão europeu na década de 1990. Teve apenas uma parte que ficou, a meu ver, bem pior. Quando embarquei em Guarulhos rumo à minha aventura europeia, gastei um dinheirinho razoável comprando uma câmera fotográfica de boa qualidade e, com ela, tirei mais de 200 fotos. Só isso? Bem, as câmeras utilizavam filme, que era caro. A impressão das fotos também não era barata. Assim, a gente só fotografava mesmo o que chamava bastante a atenção. De resto, a gente contemplava: uma pintura, uma escultura, um prédio, uma rua, uma praia, jardins, campos, montanhas e tudo mais que chegava aos olhos. Uma visita a um museu não era interrompida por uma mensagem de WhatsApp. Todas as riquezas da viagem eram sugadas com fervor para dentro da memória e, às vezes, recebiam algum registro escrito em um diário. Mas, só isso.

Eu não sou saudosista e adoro as facilidades do mundo atual. Não fossem os preços mais baixos e a tecnologia, eu viajaria bem menos. Mas, a lembrança daquele tipo de aventura de antigamente me faz tentar, constantemente, não tirar fotos de tudo, como se nada pudesse chegar aos meus olhos se não pela lente de um celular. É uma luta difícil. Nas vezes em que consigo vencê-la, nas vezes em que faço da tecnologia apenas uma ferramenta auxiliar de viagem, sem ofuscar a minha própria viagem, sinto que consigo o equilíbrio perfeito e volto para casa com memórias inesquecíveis.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.








 

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