29/12/2019 às 09h00min - Atualizada em 29/12/2019 às 09h00min

A primeira vez

WILLIAM H STUTZ
Não há desencanto de amor, paixões bem resolvidas.
Amigos os tenho, poucos. Porém forjados em boa têmpera.
Inoxidáveis, eternos.

Com o Criador mantenho bom cortejo, sem intermediários.
Não confesso a homem que se diz, arrogantemente, santo.

Me deixo levar pela louca vida embriagado e em permanente torpor.
Fardo árduo. Empreita difícil.
Me embriago em busca de centelhas de êxtase, de verdadeira razão.
Me embriago.
Atormentado, padeço à mingua de vida não correspondida.

(William H Stutz em um longe dia . Hoje no aguardo de um ano novo melhor para todos)
 
Nada é por acaso. Esse era seu eterno pensamento, sua verdade absoluta. Acreditava que tudo estava escrito nas estrelas e que, por mais que remasse contra a correnteza, o que teria de acontecer, aconteceria.

Assim levava sua vida insossa, sem sustos, planos ou certezas.

Um dia após o outro. O tempo ia se acumulando em sua alma, em seu corpo, em suas vestes. Não se dava conta de nada que o cercava. Fechado em copas vagava, flutuava. Fantasma.

Não se podia dizer que era triste, pois tristeza pressupõe sentimento. Não os tinha.

Não se podia dizer que era alegre, não o era pela razão mesma.

Não via televisão, não ouvia rádio. Cinema o entediava e teatro o punha a dormir. Nunca lera um livro ou jornal. No trabalho era peça de mobiliário. Cumpria mecanicamente seus afazeres sem questionar, não se aborrecia, não se exaltava.

Tinha horror a férias pois não sabia o que fazer delas. Feriados eram tortura. Nunca sorria, nunca franzia a testa.

Não tinha amigos ou conhecidos, jamais sentava à mesa de um bar. Não bebia, não fumava.

Certa feita sentado em banco de praça, avistou um anjo. Anjo de tal beleza tal que ofuscava o brilho do sol, calava pássaros, adoçava a brisa, iluminaria a noite.

O anjo estava parado próximo a uma fonte. Suas asas enormes em posição de descanso chegavam até o chão e eram de um branco divino jamais visito, jamais retratado. Contemplativo o anjo o observava curioso. Não havia reciproca pois para ele o anjo era na realidade apenas um anjo.

Curioso, a celestial criatura se aproximou. Chegou bem próximo dele. Frente à frente, nada. Encostou seu rosto no dele para que pudesse sentir o mais doce dos perfumes, o toque da mais macia e tenra das peles. Era como se ali não estivesse.

Perturbado, o anjo soprou levemente o seu rosto um hálito do mais puro frescor, ervas aromáticas mentoladas das mais finas regiões do éter, nada. Sentou-se intrigado por alguns instantes no encosto do banco bem ao seu lado. Com as angelicais mãos no queixo perfeito, avaliava a situação cuidadosamente.

Em leve flutuo postou-se novamente, agora agachado e com as mãos nos joelhos da pétrea figura. Entoou baixinho o mais belo de seus cânticos, ouvidos moucos, nem lágrima ou susto, mais uma vez um simples nada.

Pela primeira vez em sua eterna existência o anjo não se viu. Não foi festejado nem adorado, Não ouviu os ou ais de espanto/encanto. Não foi louvado nem escorraçado

Agoniado em imensa confusão voou solto e alto, o acompanhava agora para sempre a terrível dúvida se ele, anjo, realmente existia.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
 
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