10/12/2019 às 13h29min - Atualizada em 10/12/2019 às 13h29min

Canto da gente chorar

ENZO BANZO
Fazendo vezes de mestre de cerimônia, Maíra de Ávila, que há 23 anos era uma das 13 crianças da primeira formação do então Projeto EmCantar, levou o público às risadas da cumplicidade: "gente, eu queria fazer um pedido de desculpas: esqueci de avisar, antes da apresentação das crianças, para terem em mãos uns lencinhos para limpar o choro". Lembrei-me de imediato da primeira choradinha discreta que me correu, quando conheci o grupo lá se vão mais de duas décadas. Tinha uma gana no canto daquelas crianças, uma verdade profunda, que cutucava um pedacinho ali dentro da gente, um detonador de lágrimas. Naquele época, na ausência de um músico que os acompanhasse, ensaiavam junto do CD com a gravação original. Foi assim que me convidei para ser tocador de violão, ofício que cumpri com doce gosto de sal por mais de dez anos.
 
No último sábado, a hoje Cia Cultural EmCantar (que deixou de ser um projeto para se multiplicar em vários) comemorou aniversário com jornada dupla em sua terra natal, Araguari, de onde saíram, mas não arredaram pé. A passagem do tempo impõe sempre um desafio: como, ao mesmo tempo, permanecer e evoluir? Como não perder a própria essência e, ao mesmo tempo, não se estagnar no conquistado existente? A dupla apresentação era necessária para a resposta.
 
Primeiro, com participantes de projetos do EmCantar Social, no formato em que o grupo se fez conhecer, mas com outros rostos de criança: a meninada cantando naquele coro de arrepio, entre a força dos tambores, de um lado, e a delicadeza do conjunto harmônico, do outro. Vez ou outra uma menina ou menino desgruda-se do coro, pega o microfone e surpreende a todos com a singularidade da própria voz e expressão, uma ternura que só uma criança carrega, com uma preparação segura de quem sabe o valor precioso daquele tempo que passa rápido, hoje no palco, amanhã na vida. O público sente, aplaude, chora, sorri.
 
Depois, foi a vez do conjunto de artistas que aceitou o desafio da profissionalização, passando a constituir o Grupo EmCantar. Desde o espetáculo "Parangolé", há dez anos (as crianças já crescidas), trocaram o formato de coro pela linguagem cênico-musical. A partir daí, foi uma sucessão de produções caprichosas, misturando canto, teatro, literatura, dança, figurinos, cenários, recursos audiovisuais. Zelo, excelência. E a noite era de estreia, espetáculo novo, elenco renovado, surpresas pela frente. O título já se apresentava como tradução do espírito do grupo: "Canto da Gente" sintetiza o cantar que é junto, que é próprio e que é humano, o canto como lugar, o cantinho de onde a gente vem, a própria origem.
 
E "Canto de Gente" é um espetáculo que, inovando, convoca a memória. Se agora no palco já são adultos, os personagens são crianças em férias na roça dos avós. O primo que mora longe, o avô que passa medo na criançada, a avó que, ao invés de censurar, estimula carinhosamente a brincadeira. Tem história de terror, humor, tristeza. Cantar debaixo das árvores, ouvir melodia em tudo. Morte que transforma, vida que celebra. Beleza que vira saudade.
 
Caras novas no palco "emcantado", Kainã Bragiola e Luciene Andrade parecem ter estado sempre ali, gratas surpresas, assim como o toque do diretor Rafael Michalichem. Entre os rostos de outros carnavais, Ana Lopez é dessas atrizes cuja personagem é sempre um pouco de si. Viviane Rodrigues, criança-avó, gente-boneca. Carlim, Caju, Ivan, música em precisão e lirismo. Marco Aurélio Querubim é pura alma, é a alma de tudo. Muitas canções inéditas, criadas pelo grupo em conjunto ao surgimento do espetáculo. Novidades que retratam a linha da vida, olhando para a frente, para trás para os lados. Movimento circular, tempo em espiral. "Dos meus pais aos meus ancestrais", dos adultos que foram crianças às crianças que são e às que viram. O que persiste é o "emcanto". Não há lenço que o limpe.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.










 
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