24/11/2019 às 09h00min - Atualizada em 24/11/2019 às 09h00min

O olhar do outro

ALEXANDRE HENRY
“Somos todos narradores não confiáveis de nossas próprias vidas”. Essa frase que ouvi na semana passada, dita pela psicoterapeuta Lori Gottlieb, representa a mais pura verdade. Em regra, a gente sempre distorce o nosso passado, preso a memórias seletivas e a vieses cognitivos. Registrando minhas memórias há mais de vinte anos, ainda que de forma não muito perseverante, basta reler o que escrevi lá no começo para perceber que muito do que eu imaginava sobre meu próprio passado não condiz com o que realmente vivi.

O grande problema é que nós não somos narradores confiáveis não apenas dos nossos passados, mas também do presente. Quando você olha ao seu redor, está enxergando o mundo por meio de lentes muito pessoais, as quais vêm sendo calibradas desde que você nasceu pelos seus genes e, principalmente, pelas suas experiências. A cena que você vê na esquina da sua casa é uma só, mas a cena que entra na sua mente é distinta daquela que entra na mente do seu vizinho. Qual é a real? Nenhuma delas, ao menos não por completo. A consequência do uso dessas lentes personalíssimas para enxergar o mundo é, entre outras coisas, a incapacidade de visualizar certos problemas e defeitos que temos e, principalmente, a não aceitação das críticas alheias. Se você detesta ser criticado, não se sinta só: eu estou com você. Eu e o resto todo do mundo. Mas, isso não significa que a gente não tenha que parar, de vez em sempre, e prestar atenção um pouquinho mais no que andam dizendo sobre a gente.

Fiquei pensando nisso depois de ouvir a fala de Bob Langert, executivo americano de uma das maiores redes de fast food do mundo, que contou algumas experiências de contato com organizações extremamente críticas à companhia em que ele trabalha. O primeiro relato foi do encontro com representantes do EDF – Environmental Defense Fund, ou Fundo de Defesa Ambiental, uma entidade que, conforme relata Langert, foi fundada no princípio de que o caminho era “processar os sacanas”. No caso, os sacanas seriam Langert e a empresa para a qual ele trabalha.

Agora, imagina só você, seja como empresário ou mesmo na sua vida particular, marcando uma reunião com quem, desde sempre, concentra todos os seus esforços em te destruir! Nada fácil, não é mesmo? Pense naquela sua vizinha ou naquele seu vizinho com o qual você quase já saiu no braço, depois pense em vocês dois marcando um encontro e se sentando frente a frente para “bater um papo” – digamos assim. Bob Langert e o EDF fizeram isso, estabelecendo uma parceria improvável. O executivo levou os dirigentes do EDF para conhecer seus restaurantes por dentro, fizeram comparações com outros restaurantes, trocaram ideias sobre materiais recicláveis e – vamos resumir a história – ambos chegaram à conclusão, após ouvirem um ao outro e participarem da realidade recíproca, que muitas das ideias iniciais para a empresa de Langert não funcionariam. Por outro lado, o executivo acabou percebendo que outras tantas ideias, como mudar a cor de uma sacola descartável ou diminuir o tamanho dos guardanapos, ideias dadas pelo EDF, seriam factíveis e extremamente produtivas. Relata Langert: “E foi aí que aprendi uma lição: que aqueles militantes de ONGs não eram diferentes de mim. Eles se importavam, tinham paixão pelo que faziam; não éramos diferentes. Assim, tivemos uma parceria de 6 meses que acabou produzindo um plano de ação com 42 pontos para redução de resíduos, para reduzir, reutilizar, reciclar. Fizemos uma medição durante a década de 1990 e, em cerca de 10 anos, reduzimos 136 milhões de quilos de resíduos”.

Não vou detalhar a segunda experiência narrada pelo executivo por falta de espaço, mas ela é tão interessante quanto essa primeira.  Moral da história? Somos todos narradores não confiáveis de nossas próprias vidas. Por isso mesmo, é preciso buscar, em outros narradores, novas versões para nossas vidas, a fim de fazer comparações e, de uma forma ou de outra, conseguir evoluir um pouco. Mais do que isso, às vezes a fonte das melhores informações não está naquele seu amigo ou no parente próximo, os quais podem ter, também, lentes distorcidas quando olham para você. Por isso, parar para prestar atenção nas palavras de gente que está do outro lado também pode ser extremamente importante, ainda que essa pessoa seja um habitual atirador de pedras contra você. Não é porque alguém não te quer bem que tudo o que ele fala de você não é realidade. Sim, sim, eu sei que é difícil colocar isso em prática. Mas, não custa tentar, ao menos de vez em quando.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 
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