20/10/2019 às 08h15min - Atualizada em 20/10/2019 às 08h15min

Capitalismo para todos

ALEXANDRE HENRY

No último domingo, publiquei aqui o texto “A tragédia uberlandense”. Minha mensagem sobre a inacreditável e perniciosa ocupação territorial de Uberlândia recebeu bastante apoio, mas também algumas críticas que vieram da esquerda e da direita. Dou sequência ao tema da última semana falando, pois, para quem interpretou minhas palavras como um pensamento esquerdista e anticapitalista.
Dois dias depois de publicada a coluna, ouvi a palestra “The dirty secret of capitalism – and a new way forward”, ministrada por Nick Hanauer no TED Summit 2019. O título da palestra pode passar a ideia de que ela foi proferida por um acadêmico marxista. Nada mais distante disso. Transcrevo a introdução da fala de Hanauer: “Sou capitalista. E depois de uma carreira de 30 anos no capitalismo, que se estendeu por umas 30 empresas, gerando dezenas de bilhões de dólares em valores de mercado, não estou apenas entre o 1% que ganha mais, estou entre o 0,01% de todos eles”.

Não vou adiantar aqui o que ele disse na íntegra, mas vou pegar como gancho a crítica que ele faz ao neoliberalismo e trazê-la para o contexto do inadequado ordenamento territorial de Uberlândia. De início, ressalto que também sou capitalista, embora olhe para as ideias socialistas não como algo abjeto e, sim, como mais uma fonte para aprimoramento do sistema econômico-social que vejo como o melhor. Dito isso, relembro que meu texto da semana passada criticava de forma incisiva a evolução do espaço urbano uberlandense, com grandes áreas centrais não loteadas ou não edificadas, ao mesmo tempo em que não param de ser criados novos loteamentos absurdamente distantes e desconectados com a estrutura urbana. Meu texto foi escrito do ponto de vista de um cidadão preocupado com o seu próprio bem estar, com o bem estar da população local em geral e, claro, com o destino dos impostos que saem do meu bolso para a Prefeitura Municipal de Uberlândia.

Agora, escrevo um texto só sob a ótica capitalista. Se você assistir à palestra do Hanauer, compreenderá exatamente aonde quero chegar. A crítica que fiz à forma com que Uberlândia vem sendo ocupada por novos bairros há décadas não é uma crítica socialista, mas capitalista. Quem não quer ver implantadas as ideias marxistas precisa entender que o capitalismo deve ser para todos ou não será de ninguém em pouco tempo. O que eu chamo de capitalismo para todos? É aquele sistema que favorece as raízes da economia de mercado, que favorece o aumento da produção e da circulação de serviços e mercadorias, entre outras coisas. Isso não acontece quando você tem apenas meia dúzia de latifundiários urbanos formando fortunas com especulação imobiliária, em detrimento de todo o resto dos capitalistas.

Imagine que Uberlândia fosse uma cidade mais racional, que não tivéssemos um bairro como o Shopping Park separado do resto da cidade por uma extensa área de pastagem. As pessoas chegariam mais rapidamente ao trabalho. O custo de deslocamento seria menor, seja do ponto de vista financeiro ou pessoal. Mais descansada, a pessoa produz mais. Tendo tudo mais perto, ela sai do trabalho ainda animada a consumir algum produto de lazer na rua. Menos estressado sem os longos deslocamentos e com mais tempo para a família e para si mesmo, o trabalhador adoece menos e se afasta menos do serviço. O dono da pizzaria consegue ter seu empregado mais feliz. Consegue vender mais, porque o frete da entrega será menor, já que não terá que cruzar a área de uma fazenda até chegar ao consumidor. Em condições ideais, o estresse no caixa da Prefeitura até poderia ser menor, favorecendo a redução dos impostos e, com isso, reduzindo o custo das empresas e favorecendo o capitalismo.

Eu poderia escrever linhas e mais linhas sobre o tema, mas acho que você entendeu. Há capitalismo além das ideais estritamente neoliberais, que estão levando o mundo a uma situação de desigualdade tão grande que põe em risco o próprio capitalismo, já que a tendência é reduzir o poder de compra dos consumidores, estimulando intervenções estatais inadequadas e até a implantação de algum projeto marxista de governo.

Enfim, se você é capitalista como eu, tente ver o mundo um pouco além das doutrinas econômicas que se tornaram hegemônicas nas últimas décadas e que só favoreceram uma ínfima elite mundial. Veja a palestra de Hanauer e você entenderá o que eu quero dizer. E entenderá por que as minhas críticas da semana passada neste espaço podem ser entendidas como expressão de ideias genuinamente capitalistas.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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