17/10/2019 às 07h58min - Atualizada em 17/10/2019 às 07h58min

Dejetos na Capim Branco: um assunto que importa a todos

ODELMO LEÃO | PREFEITO DE UBERLÂNDIA

Ao longo de todos esses anos na vida pública, nunca me furtei à discussão sobre quaisquer assuntos que pudessem afetar a vida da população. Por isso, peço licença para mais uma vez convidar a comunidade de Uberlândia e região para que se engajem em um debate que pode definir a segurança hídrica e de abastecimento da cidade nos próximos anos. De forma suprapartidária e sem bairrismos, o assunto requer a atenção e o acompanhamento sério de autoridades, ambientalistas, especialistas locais e demais interessados. Uma omissão generalizada, ressalto, custaria caro ao futuro da nossa gente.

Estou me referindo, logicamente, à instalação da fábrica de celulose nos municípios vizinhos de Araguari e Indianópolis, cujo projeto original prevê o descarte dos dejetos da indústria na represa Capim Branco. Ou seja, o despejo ocorrerá próximo ao local em que vamos captar água para abastecer até 3 milhões de moradores. Há meses, equipes da Prefeitura de Uberlândia e do Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae) têm conversado com representantes da empresa para entender, sobretudo, qual a possibilidade de contaminação da água dentro desse processo. Infelizmente, até o momento, nenhuma conclusão segura foi apresentada.

Alguns indícios nos mostram que não há garantia neste sentido. Questionamos o ambientalista responsável pelo projeto, por exemplo, sobre a razão pela qual a empresa não pretendia tratar os efluentes para irrigar suas próprias plantações. Foi-nos dito que isso não seria viável, pois contaminaria o lençol freático do cultivo. Ora, se há risco de contaminar o lençol freático, não afetaria a qualidade da água que será usada para beber? Na sequência, uma surpresa ainda maior: a empresa confirmou que, até aquela ocasião, não tinha conhecimento de que água seria captada para consumo humano na localidade.

Outro sinal de alerta está relacionado à própria grandiosidade do descarte. De acordo com os estudos apresentados pela própria empresa, seriam mais de 600 litros por segundo de material orgânico despejado no lago. Uma quantidade vultosa de substâncias que têm difícil diluição em água parada e com potencial para proliferar algas e bactérias que liberam toxinas. E preciso dizer a verdade. Em uma situação como esta, o Dmae não teria condições técnicas e seria incapaz de tratar a água da represa. Soma-se a isso tudo o fato de que não foi apresentado o projeto da fábrica ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Araguari.

Portanto, diante dessas incertezas, nós nos manifestamos favoráveis sim à implantação da planta, mas não podemos aceitar que os produtos sejam derramados justamente no local que é vital para garantir o progresso e a qualidade de vida do nosso povo. Seria uma irresponsabilidade minha e de qualquer outro administrador público.

E é por isso que, com seriedade, estamos atrás de soluções que permitam que a instalação da fábrica avance, sem que a represa Capim Branco seja prejudicada. Dialogamos com o Governo de Minas, que sugeriu a construção de um duto, passando pela zona de amortecimento do parque do Pau Furado (área ao redor da unidade com o objetivo de filtrar os impactos negativos de atividades externas), para que os efluentes sejam jogados já na correnteza do rio Araguari, sem prejuízos ao meio ambiente. Enquanto a alternativa é analisada, já determinei que o Dmae solicite um estudo e uma avaliação da situação por parte de uma consultoria especializada. Queremos apontar novas e viáveis opções.

O desenvolvimento econômico do Triângulo Mineiro deve, sem dúvidas, ser perseguido com esforço por todos aqueles que amam ou estão comprometidos com a nossa região. Tenho convicção de que esta meta, no entanto, não pode, de maneira alguma, estar dissociada da responsabilidade e do respeito ao ser humano. Não é razoável que qualquer possibilidade de avanço signifique colocar em risco a vida das pessoas.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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