15/10/2019 às 08h18min - Atualizada em 15/10/2019 às 08h18min

Oferecer o ombro

MARIÙ CERCHI BORGES | PROFESSORA

Estou no trânsito e presencio uma cena: dois senhores, aparentando mais de sessenta anos de idade, saem de uma clínica de reabilitação. Estão bem vestidos. Um deles, bem alto, o outro, nem tanto. O mais alto apresentava um visível problema nas duas pernas, o que o fazia andar com uma certa dificuldade; com uma das mãos, apoiava-se numa bengala e com a outra, no ombro do companheiro.

Paro o carro para deixá-los passar. Do meu ângulo de observação e, também, de minhas inferências, fico chocada! O senhor que oferecia o ombro, além de não olhar para o companheiro, caminha depressa em direção ao carro, enquanto o “enfermo” se esforça, ao máximo, para alcançá-lo. Tal a pressa, que o “enfermo” mal consegue tocar, com os dedos, o ombro do companheiro.    

Fico estarrecida! Mais estarrecida ainda fiquei quando percebi que, ao chegarem no carro, o companheiro não fez nenhum gesto de ajuda, cabendo ao “enfermo” abrir, com muito esforço e sozinho, a porta para acomodar-se com dificuldade no banco traseiro.

Segui o meu caminho, esforçando-me para não ser cruel nos meus julgamentos. Achei que a cena que presenciei falava por si, e que qualquer pessoa que a tivesse presenciado teria, também, se chocado. Preferiria não ter feito julgamento nenhum, mas fiz. Reprovei o gesto, ou, melhor dizendo, a ausência do gesto que me pareceu falta de solidariedade. Lembrei-me de uma frase de Rui Barbosa: “quanto maior o bem, maior o mal que da sua inversão procede.” Era exatamente isso que estava presente no meu processamento interno. Não era um bem o que aquele senhor estava fazendo, mas o seu inverso.

Lembrei-me de uma frase do Mestre: “Amar o próximo como a ti mesmo”. 

O Mestre sabia que esta lei seria a mais difícil prova de amor a seguir: um verdadeiro desafio. A verdade é que estamos vazios de valores éticos e morais, sem os quais o ser humano vai perdendo os eixos que alicerçam um agir consciente. Um caminho de retrocessos em direção à falência do amor ao próximo.

Creio que trazemos, bem no íntimo de nosso ser, códigos que definem as condutas do bem e do mal. É no caminhar por esse mundo afora que vamos, através de acertos e erros, construindo nossa inserção no mundo. Talvez seja por isso que são poucos os que entendem a importância de se oferecer - na hora certa e no momento certo- o ombro, a quem dele venha precisar.

Se julguei mal a cena que presenciei, que me desculpem os protagonistas desse grotesco episódio.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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