22/09/2019 às 08h15min - Atualizada em 22/09/2019 às 08h15min

Pornografia e sala de aula

ALEXANDRE HENRY

Fui adolescente em uma era anterior à internet e, por isso, o acesso a conteúdo pornográfico não era muito fácil. Havia as revistas eróticas com mulheres nuas e havia, claro, as revistas mais pesadas, com fotos de atos sexuais. A questão é que a maioria ficava escondida e coberta com plásticos nas bancas de revista. Fora isso, também havia os filmes pornôs nas locadoras, mas a situação era a mesma: não havia aluguel para menores de 18 anos e o material ficava, geralmente, em uma sala reservada.

Isso significa que a minha geração não teve contato com material pornográfico? Claro que teve! Moleque é moleque e ponto final. Sempre se dava um jeito, sempre alguém furtava uma revista que um tio tinha comprado ou conseguia uma cópia de um pornô, distribuindo para a turma. A diferença entre os dias atuais e aquela época não está na ausência de acesso ao material, mas na facilidade de acesso e na quantidade de conteúdo disponível. Hoje, as coisas mudaram. Uma criança com um celular pode ver de tudo na internet sem qualquer restrição, a não ser que os pais coloquem algum bloqueador. Mesmo nesses casos, sempre haverá um colega cujos pais não têm a mesma preocupação. Resultado? A meninada de hoje consome muito mais material pornográfico.

O principal problema, como apontou Emily F. Rothman, pesquisadora da área de saúde pública na Universidade de Boston, é que “os adolescentes estão buscando na pornografia educação e informações sobre sexo. E isso porque não conseguem encontrar informações confiáveis e reais em outros lugares. Menos de 50% dos estados nos Estados Unidos exigem que a educação sexual seja ensinada nas escolas, incluindo tópicos como prevenção de sexo coagido. E menos da metade desses estados exige que as informações apresentadas sejam clinicamente precisas” (confira a fala integral da pesquisadora na palestra “How porn changes the way teens think about sex”, disponível em www.ted.com). Ao buscarem conhecimento sobre relações sexuais na pornografia, os adolescentes acabam por encontrar um conteúdo muito ruim, que não reflete a realidade e pode levar a comportamentos não muito saudáveis.

Diante dessa constatação, abrem-se então dois caminhos – e apenas dois, a meu ver. O primeiro deles é tentar proibir os adolescentes de acessar conteúdo pornográfico. O segundo, trabalhar a pornografia, inclusive nas escolas, de maneira a torná-la uma “deixa” para discutir educação sexual de forma adequada. Qual solução você acha mais viável? É inegável que não dá para vedar o acesso da molecada a conteúdos pornográficos na era da internet. Então, resta apenas a segunda opção e ela pode ser muito interessante. Como destacou a pesquisadora em sua palestra, a simples pronúncia da palavra “pornografia” em uma palestra ou na sala de aula é suficiente para conquistar a atenção dos adolescentes de forma avassaladora, pois eles estão ávidos por informação nessa área. Por isso, o ideal é trabalhar o tema de forma inteligente. Como bem pontuou Rothman, fazer “como quando adultos dão brownies às crianças como sobremesa, mas secretamente assam abobrinha ou algo saudável dentro dele”.

Nos experimentos que Rothman e sua equipe fizeram, percebeu-se que a solução passa por trabalhar o tema sem fazer julgamentos. Não se trata de colocar um filme pornô na sala de aula e discutir qual é a melhor posição sexual. Também não se trata de fazer uma campanha antipornografia para os alunos. Nada disso funcionará. Reproduzo as palavras de Rothman sobre a pesquisa: “Naquele programa extracurricular, notei que, assim que mencionamos a palavra pornografia, aqueles jovens estavam prontos pra falar absolutamente tudo sobre o que eles faziam e o que não queriam ver em pornografia, o que faziam e não queriam fazer durante o sexo. E o que era degradante para as mulheres ou injusto com os homens ou racista, tudo isso. E levantaram alguns pontos realmente sofisticados. Exatamente o tipo de coisa que gostaríamos que falassem a respeito como ativistas de prevenção à violência”.

Em resumo, ao contrário do que as hordas conservadoras andam pregando, é preciso e há maneiras saudáveis de conversar sobre pornografia com os adolescentes. Não adianta enfiar a cabeça no buraco e fingir que o problema não existe. A meninada continuará consumindo pornografia, queiramos ou não. O caminho, portanto, é usar o tema como chamariz para uma discussão honesta, aberta e sem preconceitos com os estudantes, de maneira a evitar com que a pornografia seja a única fonte de informação deles sobre sexo.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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