19/09/2019 às 07h50min - Atualizada em 19/09/2019 às 07h50min

Casos do Zé

ANA MARIA COELHO CARVALHO

O Zé, meu marido, gosta muito de dinheiro (mas, como diz ele, quem não gosta?). Na década de sessenta, ele resolveu comprar um sítio para o lazer da família. Mas entendeu que também deveria, é claro, tirar algum lucro da nova propriedade. Fez contas e mais contas e concluiu que um bom investimento seria criar galinhas caipiras para vender. Cada galinha, por ano, daria uns 20 descendentes; 200 galinhas dariam, vivos, uns 3.000 galináceos. Como o preço da galinha caipira era muito bom naquela época, seria lucro na certa. A partir daí, começou a povoar o sítio, comprando galinhas sem parar. As galinhas eram compradas de vendedores de bicicleta, dependuradas em um pau, colocadas de cabeça pra baixo e de bico aberto, em posição de desespero total. No início, uma maravilha: galinhas ciscando pra todo lado, galos cantando, lindos pintinhos piando. Muitos ovos, muitas galinhas chocando, muitos compradores para os frangos. Era só esperar o lucro. Mas começou a faltar comida natural (minhocas, bichinhos, etc) e a ração ficou muito cara, o milho também. Apareceram pássaros que bicavam e destruíam os ovos. Pintinhos nasciam aos montes, mas também morriam aos montes: com a “doença do caroço”, pisoteados pelas galinhas, afogados nas enxurradas, mortos de frio durante a noite. Uma mortandade de fazer dó. Os poucos frangos que sobravam não tinham mais tantos compradores. Por fim, acabaram-se as galinhas e os compradores. Restou para o Zé uma lição: nem tudo é o que parece ser. E sempre que um filho pretende fazer algum negócio ou investimento, adverte com voz grossa: -"Cuidado, lembre-se das contas das galinhas!"

Outra coisa que o Zé gosta muito é de futebol. Assiste na TV, torcendo pro Cruzeiro. Mas também assiste qualquer time de segunda divisão. Além disso, durante muito tempo jogou “racha” com uma mesma turma, no Clube Cajubá. Usava um tênis preto de lona, bastante surrado. Um belo dia o tênis rasgou. O Zé só viu na hora do jogo, quando foi calçar o tênis. A última coisa que ele faria na vida seria deixar de ir ao “racha” simplesmente porque o tênis estragou. Não teve dúvidas: calçou o pé direito com o tênis preto que estava bom e o pé esquerdo com um tênis branco, que ressuscitou do armário. E lá se foi, todo feliz, com um tênis de cada cor. No princípio, a turma do “racha” achou engraçado, depois se indignou: -“Assim não dá, você está confundindo todo mundo, a gente não sabe se você é um ou dois jogadores!” No jogo seguinte, levaram um tênis novo de presente pra ele. O Zé saiu lucrando.

Uma outra situação engraçada aconteceu quando fomos visitar o filho engenheiro que morava em Toronto, Canadá. O Zé estava mancando e com a perna inchada, consequência de uma torção muscular. Nós dois fomos almoçar em um shopping imenso, na praça de alimentação lotada. Esqueci de pegar guardanapos, levantei-me da mesa e fui buscar. Nisso, apareceu uma mulher pequenina, apanhou minha bolsa dependurada na cadeira e saiu rapidamente. O Zé ficou de pé, mas não conseguia correr atrás, por causa da torção. Pensou em gritar “help” (uma das poucas palavras em inglês que sabia), mas ficou encabulado de gritar em pleno shopping. Além disso, não saberia explicar a situação, em inglês, para quem acudisse. Permaneceu parado, boquiaberto, pensando em como foi sair do Brasil para ser assaltado no primeiro mundo e por uma mulher. Nisso, voltei tranquila, com os guardanapos na mão, sem saber de nada. A mulher veio correndo atrás de mim e entregou-me a bolsa. Ela pensou que eu a tinha esquecido na cadeira! Quando olhei para a cara do Zé e entendi a situação, tive um ataque de risos. Mineiros no exterior é assim mesmo, um apuro atrás do outro.

Existe mais uma situação interessante, a do telhado, mas essa o Zé não me deixa contar. Vou levá-la comigo para o túmulo.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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