18/09/2019 às 08h12min - Atualizada em 18/09/2019 às 08h12min

A ilusão moralista

ADIR CLAUDIO CAMPOS | ADVOGADO E MESTRE EM DIREITO PÚBLICO

Há muito tempo percebi que as ideologias moralistas, religiosas e políticas são um biombo que esconde as questões essenciais da sociedade, basicamente, o interesse real e concreto das pessoas. Esses interesses ocultos correspondem diretamente à função social que cada um exerce. Antes de metafísicos, os homens precisam ser práticos, e ninguém escapa disso, nem os monges do Tibet ou as freiras carmelitas. Aliás, os pastores da “teologia da prosperidade” são um bom exemplo disso.

Nessa discussão ingênua de “extirpar” a corrupção – e que obscurece a clareza e o conhecimento da realidade – perde-se de vista que nas sociedades produtoras de mercadorias o que prevalece não são valores morais idealizados, mas valores morais próprios do individualismo calculista. É inerente à compra e venda, apesar da regulação moral e jurídica contratualista, cultivar a malícia e a esperteza na arte de negociar, de onde brotam o poder ilusionista da propaganda. O engano e a fraude são “patologias” universais e inerentes a essa forma de vida social. Todo aquele que vende alguma coisa é permanentemente instigado ou induzido a iludir; do lado do comprador, não há diferença relevante. São fatos a olhos vistos. Por isso a ordem jurídica e o controle público dos atos mercantis é uma necessidade imperiosa – e detestada pelos mercadores, naturalmente.

A sociedade inteira, em todos os países, está indignada com a corrupção. No que pese a ilusão do que seja a corrupção e de quem sejam realmente seus verdadeiros agentes, vejo algo de positivo nesse debate. É a percepção de que alguém, de fato, está tirando algo de outra pessoa que não lhe pertence. Parece pouco, mas não é, principalmente se levarmos em conta de que a democracia e os princípios republicanos são recentes na história, muito recentes. Por milênios, a humanidade viveu sob a égide da monarquia e da servidão feudal e escravista. 

A médio e longo prazo, essa ideia de que estamos sendo “assaltados” pode evoluir e radicalizar para ações mais decisivas e definitivas em direção a uma forma de vida social racional e verdadeiramente livre da corrupção e da tirania.

Precisa-se de paciência com o eleitor médio até que ele consiga enxergar no que consiste a corrupção, e entender porque as classes e partidos políticos que mais gritaram contra a “roubalheira” nos últimos anos sempre foram precisamente aqueles que mais se beneficiaram ou foram complacentes com essa deformação de conduta ética. A classe média conservadora, historicamente, sempre oscilou entre os extremos, e nunca teve a devida compreensão do que se passa com seus próprios interesses, ingenuamente entregues ao controle da plutocracia reinante que, desde o império, a manipula para seus interesses exclusivos. São poucos os que conseguem desenvolver senso crítico diante do controle seletivo da informação dos grandes veículos de comunicação e propaganda, e entender o que se passa no fundo do teatro da nossa hipócrita e cínica política.

Apesar desse aparente pessimismo, a história evolui cada vez mais rapidamente, e os acontecimentos estão prenhes de reviravoltas, a começar pelo fato de que os neoliberais não têm a menor noção do que acontece com a crise de reprodução do capital no mundo inteiro pelo menos desde meados dos anos 70, e, portanto, não têm nenhuma alternativa ao curto período de prosperidade que tivemos entre 2003 e 2013, rompido com a crise de 2015.

Olhemos para Argentina que, mais uma vez, demonstra energia e determinação para se livrar de mais um canto de sereia dos neoliberais, e parece antecipar com Macri o que também vai acontecer em breve no Brasil de Bolsonaro. Eu não tenho nenhuma dúvida disso.

Com efeito, não é notável que em menos de um ano personalidades expressivas apoiadoras de Bolsonaro e da “República de Curitiba” já conseguiram perceber que esses demagogos não eram exatamente aquilo que  lhes “venderam” no “mercado” de ilusões da política?

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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