08/09/2019 às 08h00min - Atualizada em 08/09/2019 às 08h00min

Não era para ser

WILLIAM H STUTZ

Tinha se criado ali naqueles grotões. Muito novinho, filho derradeiro de vários, coisa de 13 ou quatorze, ninguém sabia ao certo, ficava ele entre o oitavo e o nono. Sem certeza disto, pois nenhum o cantar contar direitinho além dos dedos das mãos. Alguns morreram ainda no berço, nas mãos de parteiras muito experientes. Não era pra ser, murmuravam, a levar o corpinho para padre benzer e batizar. Não sabiam se podia batizar coração parado. Diziam que era para tirar um pecado que nascia com ele. Porém, veio ao mundo cego de vida. Que pecado poderia carregar? Não havia choro, nem reza. O padre, do alto de uma escada a consertar telhado no aguardo de chuva que não vinha, apenas com um olhar por sobre ombros, lançava a benção fúnebre. Não haveria o Ritual de Exéquias e envolto em velho trapo seria levado só pelo pai. Este abriria pequena cova e ali deitaria o pequeno. Dali, em silêncio, olhos secos de iade e sofrer sem lágrimas retornaria à lida, lavrar chão seco, deitar semente como deitou o filho. Não havia pensamento sobre a perda. Não haveria luto. Não era para ser, era a única frase a ouvir dentro de sua cabeça protegida do sol por roto chapéu. Não era para ser…

Ele, ainda moleque, acompanhou tudo de longe escondido do pai. A história do pecado do irmão ido não saía de sua cabeça. De certo é como um coração, uma buchada, um fígado, que já deviam nascer crescidos, pois vira entranhas de muito porco, galinha, boi, carneiro, inhanbú, rolinha e perdiz. Estas todas deitadas debaixo da mira de seu estilingue. Então era isso, bicho não era gente humana e não nascia com o tal pecado.

Não tinha muita paciência para pessoas, o simples chegar de visita já o fazia recolher. Saia espremido por janela ou porta dos fundos, ganhava o pomar e em alguma goiabeira, magueira ou seja em que árvore fosse, desde que tivesse copa fechada, escalava com galhardia de bicho até às grimpas e se deixava ficar a espiar para dentro seus pensamentos. Ficava horas e às vezes chegava a dormir. Certa feita foi acordado por maritaca a lhe cutucar dedão como se fosse fruta. Não, não fora confundido. Todos os bichos o conheciam e dele medo nenhum havia. Passarinho pousava em seus ombros, Lobos-Guará lhe lambiam as mãos e até peixe subia à tona no esperar um agrado. Há muito jogara estilingue fora, matava mais não. Na vila era conhecido como o bruxo dos bichos. Por onde andava, sempre ao seu redor, voavam, corriam, trotavam cores arco-íris deles.

Era teimoso e observador. Queria voar como o gavião, nadar como tambaqui, correr como um campeiro, escalar como bugio. Entristecia ao ver mãe cozinhando o que tinha. Não faltava, mas o todo era minguado. Essse dia se deixou ficar lá no galho de gameleira, aninhado, pensando no irmão que não era pra ser. Sofismava.

E o padre, agora já no tellhado, a consertar telhas no sair do minúsculo cortejo, sentou-se na cumeeira, nodobrar das águas do telhado, tampou o rosto suado com as mãos e chorou em dor. Até quando tanta sofrência? Até quando meu Deus misericordioso? Não era pra ser, não firmava como resposta.

Será que ainda virão homens do bem a olhar essa gente perdida em solidão e miséria? Swem discursos falsos de dois em dois anos? Como compartilhar esperança que não tinha dentro de sua doída alma?

Há de chegar o dia do Era para Ser e aí, ninguém, por mais poderoso que se acredite, conseguirá deter as mudanças. Nem a violência das espadas, nem uma fraudelenta fé perdida ou religião que se diria libertadora, para a frustração dos falsos, ajudariam nas esperadas mudanças. Estas só poderiam vir da união dos homens e eles, ai sim, serão imbatíveis. Talvez um líder puro e sem ambição, gente do povo. O bruxo dos bichos. Quem sabe? Murmurou em galope e saiu a procurar aquele tímido moleque, pois sabia que para achá-lo teria que olhar para o alto, para as árvores das matas e quintais. Era a hora. Era para ser.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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