04/09/2019 às 07h51min - Atualizada em 04/09/2019 às 07h51min

Aventuras e desventuras de avó

ANA MARIA COELHO CARVALHO

Dizem que o bom de ser avó é que a avó curte os netos, depois entrega para os pais e vai para o cinema. Acrescento que, para curtir, é preciso ter fôlego e saber contornar situações complicadíssimas.

Por exemplo, certa vez levei os dois netos mais velhos, então com quatro e cinco anos e um amiguinho, de sete, ao clube. Lá chegando, fomos jogar futebol na areia. Um irmão no gol, outro chutando, o amigo na cadeirinha alta, como juiz, e eu “dando ideias”. O irmão maior chuta, faz o gol. O menor não aceita e parte para o ataque. Os dois se engalfinham na areia, tufos de cabelos arrancados, areia nos olhos. Para separar a briga, mando o menor, teimoso e brigão, ser o juiz. Antes de começarmos o jogo, ele dá cartão vermelho pra todos. Rebeldia geral, ninguém aceita. Ele então passa pra cartão azul. Reclamamos que não existe cartão azul, mas o juiz não abre mão. O jogo termina antes de começar e vamos para a quadra de cimento. Lá, ninguém quer ficar no meu time. O neto mais velho, sensato e equilibrado, fala com sinceridade: “Vovó, ninguém quer ficar do seu lado porque você é muito ruim no futebol” (que desaforo, eu no maior esforço!). Depois, muito bonzinho, fica no meu time, mas todo folgadão no gol. E eu correndo atrás da bola com o amiguinho magrelo que corre como condenado. Considerando o tamanho dos meus joanetes (poderia ir para o Livro dos Recordes), e os dedos do pé encavalados, até que sou uma avó ágil. O magrelo agarra a bola com as mãos, coloca perto do gol e chuta. O neto esbraveja, assim não vale. O amiguinho emburra, abraça a bola e sai do campo. O goleiro que reclamou vai atrás, senta-se com ele e dialogam. Voltam em paz e o neto fala: “os dois estavam errados”. Desisto.

Fomos chupar picolé, para refrescar o corpo e a mente. Aí, um menininho aproxima-se do neto mais novo, que estava sentando numa cadeira lambendo o picolé de morango. Meu neto olha pro menininho e dispara, sem dó nem piedade: “Orelhudo”. A mãe fica brava e puxa o filho pro outro lado. Fico envergonhada, peço desculpas e vamos embora (mas ele era orelhudo mesmo, orelhas enormes).

Até mesmo um simples bate-papo pode ser complicado. Um dia, o neto de cinco anos falou: “Vovó, eu conheço um menino do meu tamanho que é gay”. E eu, surpresa: “Você não pode falar assim do menino”. E ele: “Mas foi ele quem contou. Ele gosta de brincar de boneca e de passar batom”. Pergunto: “Batom vermelho?” E o neto: “Vermelho, cor de rosa, de qualquer cor”. Falo então que ele nem sabe o que é gay e ele responde: “Sei sim, é homem que quer ser mulher”. O neto mais novo entra na conversa : “E tem mulher gay também. É mulher que quer ser homem”. A priminha deles, de quatro anos, que estava prestando atenção no papo e pra quem os dois primos são os ídolos, fala: “Então sou gay. Quero ser homem.” Fiquei muda e calada. Falar o que?

Tem também os momentos de boas risadas (minhas). Li para eles, na revistinha da Mônica, a estória do Anjinho intitulada: “Quer dormir? Conte comigo”. A Mônica tinha assistido a um filme de terror sobre repolhos assassinos e não conseguia dormir. O Cascão queria dormir ao som de uma música “maneira”. A Magali não dormia porque a barriga roncava de fome. E o Anjinho, coitado, tentando ajudar. Passei mal de tanto rir. Os netos me olhavam espantados e incrédulos, com um sorriso amarelo, sem achar tanta graça assim e provavelmente pensando: “A vovó é louca”. Não sou, mas às vezes, ser avó é uma loucura.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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