20/08/2019 às 09h03min - Atualizada em 20/08/2019 às 09h03min

Abdulmassih construiu um clube para a cidade 2

ANTONIO PEREIRA

Naqueles tempos antigos, os coronéis construíam palacetes lindos, de preferência nos “largos”, com uma sala de visitas deste tamanho! Sabem por quê? Porque as nossas cidadezinhas não possuíam clubes, nem praças, nem ruas dignas de receberem seus filhos para um “vai-vem”, ou “footing”, como preferem as americanizadores da nossa cultura.

As ruas eram esburacadas, arenosas ou poeirentas. Nas chuvas, um lamaçal intransponível. Os largos (as praças de hoje), por não receberem um mínimo de urbanização, eram apenas espaços vazios. Até lixo se jogava neles. Tínhamos os Largos da Matriz (praça Cícero Macedo), das Cavalhadas (praça Coronel Carneiro) e do Rosário (praça dr. Duarte), cheios de casarões solenes. As largas salas de visitas substituíam os “vai-vem”, as praças e os clubes. Ali se faziam reuniões festivas, bailes, tertúlias e até carnaval. Os jovens se encontravam, namoravam e se casavam formando novas famílias. Claro que tudo entre gente do mesmo nível social. Por isso, as famílias tradicionais...

No albor do século passado, não havia qualquer atrativo que aproximasse os jovens, salvo as salas dos coronéis. Vamos ouvir falar no primeiro clube lá pelos anos 1920. Um tal de “Selecto Club”, apenas uma salinha, na parte de cima de um sobrado, na praça da Liberdade (Clarimundo Carneiro). Tão acanhada que, quando chegava o Carnaval, os foliões alugavam barracões para brincar. Esse sobrado existiu até uns dias atrás ao lado do Cine It. Foram demolidos. O “Selecto” durou pouco e, depois do seu desaparecimento, só restaram mesmo os barracões (armazéns, depósitos de cerealistas e até postos de gasolina) e as salas cinematográficas para os bailes populares; para os mais elegantes, restritos, as salas de visitas dos coronéis.

Em 1931, o libanês José Abadulmassih iniciou a construção de sua residência na praça Tubal Vilela, esquina com a avenida Afonso Pena e rua Olegário Maciel. José veio do Líbano, onde nasceu em 1887, para a Argentina e, dali, para o Brasil, residindo em Guaxupé, Tupaciguara e, finalmente, a partir de 1929, em Uberabinha. Ele pretendia construir um belo sobrado, mas como as finanças não permitiam fazer tudo de uma vez, fez primeiro as lojas do térreo e sua residência. Pouco antes de 1937, terminou o prédio fazendo no último andar um amplo salão para se instalar um clube – que a cidade não tinha.

Para aproveitar o amplo salão, pessoas da alta sociedade, remanescentes do “Selecto”, constituíram uma entidade, em março de 1937, que criou o “Uberlândia Clube”, atualmente funcionando na rua Santos Dumont, e o instalaram no Edifício Central, do Abdulmassih. O clube, no entanto, só um ano depois foi inaugurado com festa de arromba animada pela internacional Orquestra Casino de Sevilha.

A instalação da nova sociedade, além de concentrar a elite local, teve consequências sociais modificadoras do Carnaval de rua. Antes do Uberlândia Clube, o Carnaval de rua congregava pessoas de vários estratos sociais que se aglomeravam na avenida Afonso Pena, entre as praças da República (Tubal Vilela) e da Independência (Clarimundo Carneiro), principalmente entre as ruas Goiás e Olegário Maciel. Foi o Joanico, Agente Executivo que participava dos corsos, quem calçou a avenida em 1920 transformando-a no espaço de concentração carnavalesca daqueles tempos. Houve, portanto, um esvaziamento com a saída da classe que melhor colorido dava à festança do Carnaval de rua da cidade. Ela continuava a desfilar seu charme e suas fantasias ricas na avenida, mas, na hora do baile, tchau mesmo, povão!

A transformação social foi tão grande que, a partir daquele festivo 1937, as senhoras frequentadoras do Clube passaram a ser chamadas nas colunas sociais de “madames”. De qualquer forma, o luxuoso Uberlândia Clube transformou-se, a partir de sua primeira sede, no Edifício Central do José Abdulmassih, numa tradição de boas festas e bom gosto.                       
                     
Fontes: Paulo Abdulmassih e jornais da época

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
 
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