11/08/2019 às 08h00min - Atualizada em 11/08/2019 às 08h00min

Sonhos

WILLIAM H STUTZ

A escuridão abriu com força minha porta da sala. Não que fosse violenta, agressiva, intimidatória. Nada disto. Apenas estabanada em seu manifestar, talvez preocupada em saber que logo teria que dividir território com as estrelas e uma imensa lua cheia que, no camarim, se enfeitava para subir ao palco. Arrastou-se lenta pelos ladrilhos brancos do piso. Subiu paredes. Mansa, encostou-se nos rodapés. Ali ficou parada como se a espreitar terreno. Seguiu marcha parede acima. Sem cerimônia cobriu com seu negrume meu pálido Sclair, meu Viviaine Santos tão gentil. Os anjinhos barrocos esculpidos à perfeição de Antônio Francisco Lisboa, sempre olhar perdido, enfim se entreolharam, bochechas rosadas em um quase sorrir.

Seguiram de modo simultâneo sobre o abstrato de Nando Fiuza, espalharam sombras pelas vielas e telhados da bela aquarela de Jorge dos Anjos. Ali engoliram obra de Ana Abdalla, um lindo galo colorido da roça. Pensei ouvi-lo cantar a chegada da noite.

As sombras tinham padrão a seguir. Na parede oposta esconderam o lindo cerrado desnudo, também de Ana. Anoiteceu escuridão. Finalizou seu entrar em fotografia perfeita de cerejeira, parque de Washington DC, perpetuada pelo olhar de Eugênia Rodrigues. Sem saber, a sombra era abençoada por São Francisco de Helvio Lima e abraçada com amor por bela escultura de Adélia, sua esposa, ambas obras regalos do Mestre Queiroz, amigo especial, apreciador contumaz da boa arte.

Só percebi realmente o que estava acontecendo quando o espectro da paz, em fim de dia, pousou levemente as mãos em meus ombros. Levantei o olhar com certo cansaço. Princesa, a gata, levantou cabeça e orelhas em atenção virando-se para mim com seus assustados olhos verdes.

Fonte de luz agora apenas o brilho do computador. Nova tentativa de leitura digital. Dos corredores infinitos em impulsos eletrônicos da Biblioteca Nacional, garimpei um velho conhecido, Machado de Assis. A mão e a luva:

- Mas que pretendes fazer agora?

- Morrer.
- Morrer? Que idéia! Deixa-te disso, Estêvão. Não se morre por tão pouco (…). O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida.”
 
As vistas doem, sinto tanta falta dos livros, do papel…

A escuridão, fora o monitor, dominava tudo. A ouvi subindo as escadas sem cerimônia em busca de meus segredos mais íntimos. Deixa, pensei. A noite é companheira discreta, não alardeia, não grita. Os sons, estes ainda abafados pelo frenético e último centrifugar de máquina de lavar, nem se fazia notar mais. Acostuma-se com quase tudo.

A “Mão” me deu um pensar. Queria eu escrever uma carta a todos os amores que tive em minha vida. Lembranças que teimam em aflorar de um nada. Sinapses inesperadas atiram a corda com balde no mais profundo dos poços da memória e, devagar, vem trazendo pesado à tona lembranças carcomidas pelo tempo.

Amores traídos, amores abandonados, amores perdidos por maltrato. Algum não soube cuidar. Péssimo jardineiro fui muitas vezes. A outros, zelo em quantia sobrante sufocou e matou. A vontade do escrever seria o contar que tudo se foi sem amargura, agora sem dor nem saudade. Talvez um pedido de desculpas pelo pouco ou pelo demais.

Hoje vivo a calma. Como Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga, tenho agora minha Marilia para todo o sempre, um amor resgatado, bordado por décadas em alvas almas de pura paixão separado por tropeços, reencontrado por obra do destino (existe destino?). Tudo foi aprendizado.

Ser jovem há muito tempo tem suas vantagens, acabam-se as mentiras, as lembranças magoadas. Tudo vira um vazio recheado que em momentos de ficar só teimam em aparecer mas não trazem aflições, são apenas lembranças de um longe, talvez sonhar.

“- Morrer? Que idéia! Deixa-te disso, Estêvão. Não se morre por tão pouco...
- Morre-se. Quem não padece estas dores não as pode avaliar.”

Ah, Machado! A murcha flor em suas Mãos tão significativa. Morre-se disso não! A lua rompe esvoaçante de seu nicho, séquito de estrelas serelepes a seguem e se posicionam no palco celestial. Braços, pezinhos luz em primeira posiçao bailarina. Um leve endireitar de postura, um balançar suave de cabeça. Silêncio.

Faz-se hora. O breu se encolhe um pouco aborrecido. Silêncio na platéia. As “pancadas de Molière” se fazem ouvir. E eu? Vou correr a colocar a roupa no varal. “Deve-se entrar na sala”, “Ocupe seu lugar”, “O espetáculo vai começar”.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
 

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