06/08/2019 às 08h19min - Atualizada em 06/08/2019 às 08h19min

"Moleque não pergunta!"

ANTONIO PEREIRA

Bons tempos aqueles em que a cidade mal rompia a vertente direita do rio Uberabinha e enfrentava o planalto rasgado por trilheiros rumo à velha estação da Mogiana. Logo no começo da avenida Afonso Pena, que era um desses trilheiros, ficava o velho cemitério abandonado onde está o prédio que a Câmara Municipal utilizou por muitas décadas e hoje é um Museu.

Cidade cheia de oradores famosos como Agenor Paes, Honório Guimarães, Joanico, Manoel Lacerda, Francelino Cardoso e muitos outros. Não havia festa sem discursos e bandas. Acontecimento político, social, esportivo, cultural, tudo, tudo tinha discurso bom e banda de música. Até enterro.

Das bandas que a cidade teve, uma das que mais duraram e mais foram requisitadas foi, sem dúvida, a União Operária, dos saudosos França. Costume daqueles tempos era as bandas já saírem da sede tocando até chegarem ao destino, nunca muito longe.

Atrás dos músicos, marchando, tão sérios quanto eles, imitando instrumentos, iam os moleques. Banda que se prezava tinha sempre um rabo de molecada. Arlindo Teixeira foi personalidade destacada nos primeiros momentos políticos e econômicos do município. Participou de todos os movimentos religiosos, de todas as campanhas que visavam o desenvolvimento político, social e cultural da velha Uberabinha. Comerciante forte, vereador, foi homem de peso na formação da cidade.

Elegante, gostava de, nas tardes frescas, dar um passeio pelas ruas próximas de sua casa. De terno, chapéu e bengala. Ele residia na praça Dr. Duarte.

Outra personalidade uberabinhense que, se não deixou rastro na história da cidade, pelo menos foi uma figura popular enquanto viveu, foi o moleque “Mesura”, dono de um assovio agudíssimo e forte. Era integrante vitalício do rabo-de-moleques da Banda União Operária. Parece até que adivinhava quando a Banda ia sair. Estava lá, altaneiro, marchador, guardando na cabeça todos os dobrados, maxixes, valsas, enfim, o repertório da Banda que, depois, saía assoviando pelas ruas.

Era mesmo um negrinho curioso. Comprido e magrelo, vestindo-se mal, porém garboso de porte, andava pelas ruas como um soldado em desfile: cabeça em pé, peito estufado, passo marcial e assovio irritante nos lábios executando o repertório da União Operária. Ele era a Banda nos seus sonhos de menino pobre.

Numa dessas tardes amenas, imperdíveis para um passeio, lá vinha o elegante Arlindo Teixeira, passadas tranquilas, gozando a paz de um entardecer sereno quando despontou lá adiante o negrinho. Vinha que vinha batendo o calcanhar na areia, o assovio espantando até passarinho. Aquele som agudo, percuciente, forte, aborrecido, esmaeceu um tanto a paz que o velho Arlindo vinha desfrutando. Quando se cruzaram, o empresário não se conteve diante daquele azucrinante assovio. Voltou-se irritado para o Mesura:
- Onde é que a Banda vai tocar?
E o negrinho todo imponente:
- Moleque não pergunta, acompanha!
 
 Fontes: Ramiro Pedrosa e Oswaldo de Souza

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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